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há dias em que viver

é um verbo empurrado pr’amanhã.

a gente acorda no ontem,

carregando restos que viraram peso,

pendurando no corpo memórias mal digeridas,

ressacas de um tempo que não soube parar.

corre no hoje,

com o coração batendo metas,

com a cabeça tropeçando nas horas,

com a alma tentando lembrar que ainda é manhã

mas já se cobrando como se fosse tarde.

e só entrega no depois –

no depois que nunca chega inteiro,

porque quando chega

já virou mais uma tarefa vencida,

mais um alívio breve,

mais um acúmulo na agenda da exaustão.

o corpo levanta,

mas a alma ainda dorme –

ou melhor,

a alma continua trabalhando

enquanto o corpo finge que descansa.

tudo exige,

cobra,

grita,

empilha tarefas como quem empilha pedras

nas cachoeiras ‘marasmas’.

não há pausa,

não há freio,

não há colo.

só uma esteira que gira

e gira

e gira,

até que vem a vertigem

e a gente esquece

de onde veio

e sequer sabe

pra onde vai.

a vida virou isso:

uma dialética sem síntese.

uma luta sem trégua.

uma demanda que gera outra,

e mais outra,

e mais outra…

até o infinito de um dia comum.

preciso acordar amanhã cedo.

[são 2h37 da madrugada]

e o sono se recusa a vir deitar comigo.

e mesmo o descanso

[quando vem]

chega culpado,

envergonhado,

pedindo licença

num lugar onde o silêncio é luxo

e o cansaço é fraqueza.

mas ainda assim,

às vezes,

há brechas.

um café que se toma mais lento,

uma rega nas plantinhas com amor,

um vento no rosto,

um canto de passarinho

que rompe o pedido de pressa.

nessas fissuras do tempo,

a gente lembra:

sentir cansaço também é estar vivo.

não dar conta também é verbo.

parar também é verbo.

existir não é produção.

e talvez a revolução

seja, primeiro,

descansar.

então,

amanhã,

lutarei apenas UMA luta,

E SE QUISER.