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-NONADA. Assim se inicia a obra de Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas. Sua obra de alguma forma flerta com o nada, o que me levou a pensar que somente quando temos a consciência do NADA é que de fato nos tornamos alguma coisa. Na melhor das hipóteses, somos uma poeira estelar com consciência, vagando em busca de um sentido que nos faça acordar no dia seguinte e ir para o trabalho aguentar um chefe que, de longe, é mais idiota que você. A única opção sensata a se tomar seria encarar o abismo e suportar a sua vertigem, por isso não gosto de opções sensatas, a loucura me salva, a razão me escapa. Manoel dizia sabiamente que: “perder o nada é um empobrecimento”. Por isso, me tornei rico colecionando os nadas. O que seria de mim sem os meus “nadas para fazer?” Atesto que sem eles eu já teria definhado há muito tempo. Escrever se tornou para mim uma necessidade, assim como respirar. Se eu não coloco as palavras numa folha em branco, eu sufoco com elas. Uma vez tive um refluxo de palavras, solucei um verso, ele dizia: “Do nada eu faço o meu tudo”.

(Trecho do livro Entre Abismos, 2019, Alex Domingos)