Listen

Description

Siga-me no instagram @psiarque

É importante reconhecer as crises de ciúmes

De postar fotos nas redes até modificar os status para namorando nas redes sociais para provocar ciúmes. Tem gente até que sonha com o ciúmes. O que a psicologia analítica pode dizer sobre? 

amor sempre foi uma das grandes questões da humanidade. Sigmund Freud (de sua maneira), Carl Gustav Jung, Nise da Silveira já afirmaram há muito tempo que o amor per se cura, já outros autores como Charles Bukowski tendem a acreditar que ele destrói, e ainda, outrem, como Z. Bauman, afirmam de forma crítica que o amor perdeu-se e foi transformado em algo em mais efêmero e menos profundo. 

Muitos ficam divididos entre um ou outro autor para entender o fenômeno do amor, porém, apesar dos paradoxos não serem convidativos à racionalidade humana, é necessário entender que todos estes autores podem estar corretos e que o amor agrega todas estas características.

Os gregos antigos categorizaram sete tipos de amor: philautia (amor próprio); pragma (amor pragmático); ludus (amorlúdico e efêmero); philia (amor de amigos e irmãos); e eros (paixão, desejo, romance). 

Eros é o mais travesso destes todos e o mais avassaldor. Lúcio Apuleio é brilhante em descrever Eros como um mobilizador tanto individual quanto coletivo, um destruidor e reconstruidor de cidades, isto é, de nossas estruturas internas. Vale lembrar que essa pulsão destrutiva/criativa dá-se devido as suas flechas que misturaram-se com as de Tânatos, certa vez. 

Marie-Louise von Franz demonstra que a paixão erótica e seu sofrimento é um dos principais caminhos para o processo da individuação. Quem é flechado pelo deus do amor fica embriagado, em êxtase (não alcoólico). Abre-se aí uma oportunidade de reconhecimento de si. E por isso mesmo, Dionísio e os Sátiros (Pan) vem dançar no coração do apaixonado. Estar apaixonado, muitas vezes, é estar sentindo o amor, a embriaguez e o pânico de Eros, Dionísio e Pan em nós. 

Isso significa que o oposto do amor não é medo. C. G. Jung, fundador da psicologia analítica, já apontou que o seu oposto é o poder. Enquanto o amor é o eixo horizontal entre indivíduos, o poder é o eixo vertical, de hierarquia. E é aí que existe uma grande questão atualmente: a humanidade está cada vez mais pautada pelo dogma do "ter" e do "parecer que tem". É necessário ter bens materiais, status e até "ter um relacionamento". Sem delongas, de fato, possuir algo é uma ilusão, mas é nesta ilusão hierárquica que a humanidade tem se apoiado. 

Um relacionamento de paixão pautado pelo eixo vertical faz com que os apaixonados acreditem que são donos do outro indivíduo. E muitas vezes, inicialmente, esta dinâmica encaixa-se perfeitamente, pois este indivíduo coloca-se na posição de posse, de objeto do outro, portanto, em uma posição inferior e acaba aceitando um relacionamento deste tipo. 

Vale lembrar que Zelar e Ciúmes possuem a mesma origem etimológica: zelus. Neste tipo de relacionamento de posse, o zelo e o cuidar tornam-se ciúmes, possessão e obsessão. A ilusão da posse torna-se tamanha que inconscientemente o apaixonado sabe que é impossível ser o dono/possuidor do outro e, então, tende a inflar a ilusão demasiadamente, chegando a hierarquizar, tratar o outro como objeto e violentar. 

O processo da individuação pode passar por este caminho. É necessário atravessar esta dinâmica de possuidor/posse para o possuidor entender que não há como controlar e possuir o outro, bem como aquele que coloca-se no lugar da posse deve apreender que não deve se perceber como mero objeto. Ambos, se comprometidos com o autoconhecimento, deveriam sair mais conscientes de um relacionamento como este. 

Por isso, vale sempre se perguntar e olhar para os nossos relacionamentos de todos os tipos: familiares, de amizade e amorosos e perguntar em qual dinâmica eles estão agindo? Será a do amor ou a do poder?