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O despertador toca. Em um ritmo e em uma altura que adrenalina e cortisol invadem seu corpo como um tiro. Simultaneamente a isso, aquele outro em você, ansioso e preocupado com o trabalho, sim, aquele que te fez dormir tarde da noite fazendo você repassar suas tarefas e agendas já voltou a te contaminar com suas intempéries. Talvez ele nunca tenha dormido, só sentou em sua cadeira e esperou ansiosamente o "eu" acordar para retomar tudo de novo.
Desperto, os sonhos já se vão em segundos. Quiçá, dê tempo de pensar “eu sonhei com algo”. Mas seu coração já está de tal maneira acelerado devido ao outro em você, demandando de toda atenção que os sonhos voltam para o mundo dos sonhos. Outro tiro e num piscar de olhos, você já está no trabalho. Pergunta-se “eu fechei a porta?”; “eu tomei banho?”. “Acho que sim, meus cabelos estão molhados!”.
Tudo tornou-se tão automático que não somente os sonhos, mas cuidar de si também é levado para o inconsciente com o intuito de automatizar banalidades, deixando o foco e a atenção somente para o que importa. E o que importa? Ora, aquele outro em você sabe de tudo o que importa.
Para ele o que importa é sua performance. Ele é o seu treinador – o coaching. Ele quer números cada vez melhores. Afinal, o que podemos fazer a não ser melhorar cada vez mais? E o melhor disso tudo é que ser melhor não tem limites. O seu treinador acredita piamente em você. Ele te transformará, talvez, no melhor do seu setor, o mais rápido em galgar cargos e status, o melhor na academia pegando cada vez mais pesos, o melhor no sexo, a ponto de se esperar a frase provinda do outro: “foi o melhor sexo da minha vida”, mesmo que o outro diga isso de forma iludida por ter se envolvido no momento ou de forma mentirosa para acalentar você. Se isso tudo acontecer, o treinador em ti vai se orgulhar por um segundo ou menos. E depois, exigirá de ti ainda mais. Afinal, se você alcançou a meta, agora ela já é passado! "Precisamos de novas metas!”, diz ele.
Neste momento você percebe que o treinamento vai continuar e que as metas são ilusões criadas por ele para te convencer a continuar. Afinal, ele é um exímio desenvolver pessoal, sabe de todas as táticas e estratégias para você não fugir da performance. Mas, não há fim. É um abismo no qual os olhos não conseguem ver o chão. Todo aquele empreendimento para ser o melhor, é um vazio sem fim. Isso faz seu corpo estremecer. Momento de grande oportunidade para a sua Alma, contaminada pelas Erínias, acender o seu corpo com mais adrenalina, cortisol, ativando sua amídala fazendo o medo e a vertigem te possuírem. Não é mais uma simples contaminação.
É uma possessão da Alma de forma sombria para criar em você atitudes. Ela sente que precisa te interditar para você reconhecer outra dinâmica além da do treinador. Poderíamos nos perguntar: “mas por que sombria?”. Ora, se ela viesse acolher e acalentar, muito provavelmente você continuaria nessa dinâmica da performance. O ser humano precisa da crise e da tensão para se transformar. Mas muitas vezes é em vão.
Graças aos treinadores que habitam cada um de nós e suas demandas por performance, a Ciência já desenvolveu remédios que aplacam as demandas da Alma de forma mais ou menos eficiente. A Alma pode vir de diversas formas. Hoje denominamos, popularmente, suas empreitadas como: "síndrome do impostor”; “burnout”; “disfunção sexual”; “ejaculação precoce”; “enxaqueca”; “infarto”, “TAG – transtorno de ansiedade generalizada”, entre outros. Não à toa Byung Chul Han diagnostica a contemporaneidade como a sociedade do cansaço.
Apesar de querermos desviar os olhos do abismo, Nietzsche estava certo: ele está olhando para você desde sempre. O abismo é vazio, é a falta que cada um de nós encontra ao percorrer a estrada da performance.