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Roubem o que lhes roubaram,

tomem finalmente o que lhes pertence, ele gritou,

tremendo de frio em seu casaco pequeno demais,

os cabelos ondeando ao vento, sob os gavietes,

estou com vocês, ele gritou,

o que estão esperando? Chegou

a hora, botem abaixo os tabiques,

atirem os canalhas ao mar

junto com suas malas, cães e lacaios,

as mulheres inclusive e até as crianças,

com violência, com facas, com mãos nuas!

E mostrou-lhes a faca,

mostrou-lhes a mão nua.

Mas a gente da terceira classe,

todos eles imigrantes, permanecia quieta

na escuridão e tirava calmamente

suas boinas da cabeça e o escutava.

Quando é afinal que vocês querem

se vingar, se não for agora?

Ou será que não suportam ver sangue,

além daquele dos seus filhos e do seu próprio?

E ele esfolou seu rosto

e cortou sua mão

e mostrou-lhes o sangue.

Mas a gente da terceira classe

Escutava-o sem abrir a boca.

Não porque ele não falasse lituano

(ele não falava lituano);

não porque estivessem bêbados

(tinham havia muito esvaziado

suas garrafas avelhantadas,

envoltas em panos grosseiros),

não porque tivessem fome

(se bem que fome eles tinham):

Não era nada disso. Não

era tão fácil explicar.

Eles bem que entendiam o que ele dizia,

mas não o compreendiam.

Suas palavras não eram as palavras deles.

Eram consumidos por outros medos

que não os dele, e por outras esperanças.

Deixavam-se ficar, pacientes,

com seus alforjes, seus rosários,

seus filhos raquíticos

junto aos tabiques; abriam espaço,

escutavam-no, respeitosos,

e aguardavam o momento de afogar-se.



(Hanz Magnus Enzensberger)