Texto e Voz: Michel Oliveira
Esse podcast é um convite para você. Um convite, dos alunos do curso de Artes Cênicas, da UFSC, para um momento poético, uma partilha de poesia no espaço do agora.
Uma carta para meu amor que deve estar vindo
De Michel Oliveira
Não sei por onde começar, talvez não saiba nem o que dizer, mas a boca enche
para despejar tudo aquilo que já fez derramar lágrimas dos olhos de quem
prometeu não chorar mais.
Prometer não chorar? Essa promessa eu não fiz. Já me vem o choro na vista só
em pensar em ficar um só dia sem me jogar aos prantos, em qualquer canto,
qualquer cômodo, ou lugar mais bonito que seja.
O choro me lava. Chorar me encharca de tudo aquilo que pensei guardar, mas
não guardarei, ou se já guardei não sei, ou sei? Sim, claro que sei. Muito guardei,
escondi, comprimi dentro de um potinho pequeno, guardado no fundo da gaveta,
onde sabia, ninguém vasculharia. Talvez outros pertences ou até mesmo a
poeira ajudasse a esconder ainda mais.
Mas desisti disso. O choro é livre me disseram. E assim faço dele meu acordar
da alma.
Se eu tenho medo, choro. Se me sinto corajoso, me fortaleço em lágrimas que
rolam pela minha pele e purificam-me num todo.
Quem ama chora. Chora por não ter o amor correspondido, chora por ser traído,
chora por esperar demais quem disse vir, mas muito demorou e nem veio.
Quem não ama também chora. Chora por sentir falta de amar. Chora porque não
consegue amar de novo. Chora por precisar de um amor, mas não sabe onde
encontrar. Derramo esse choro.
Quem precisa de um amor quando já se ama pai e mãe, a irmã, o irmão, o filho,
o cachorro, o amigo. Quem precisa de mais amor? Eu preciso! Eu necessito de
amor. O amor cura, o amor muda, molda, move, movimenta, atormenta, lamenta,
trás problemas, resolve problemas, conflita, limita, te imita. Me imita? Reflete.
Eu vejo no amor o que não vejo em mim, mas quero ver e sentir. Vejo no amor
o que vejo em mim e quero arrancar. Por que você é tão como eu meu amor?
Por que viver com você me causa essa dor? Não quero ser como você, mas
você é tão como eu. Então, tudo bem. Eu mudo isso e aquilo para ficar de bem,
mas quando você for embora, vai levar isso que me ensinou também?
Deixa só um tiquinho dessa bondade aqui, não leve toda essa paz, nem fique
com toda essa risada alta, me deixe continuar sorrindo, me deixe enxergar o
mundo assim como você vê, tão lindo.
Obrigado por me fazer ver que é possível continuar evoluindo mesmo com você
longe. Obrigado por aceitar meu choro sem motivo, talvez fosse falta de carinho,
falta de um amor como você comigo. Obrigado por eu ser tão parecido contigo.
Obrigado por não termos nada a vê um com o outro. Obrigado por isso e por
aquilo. Você me amou e foi embora, mas deixou seu amor comigo.