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A ENCERADEIRA

Na sala um silêncio constrangedor das pessoas em volta da enceradeira parecia que nunca ia ter fim. Dr Bastos olhava para os dois rapazolas a sua frente tentando entender o estranho clima que tomava a cena. 

- Ficamos assim Dr Bastos, levo o aparelho, assim que meu pai arrumar trago de volta no mesmo dia.

Lançou Augusto para resolver a situação.

Dr. Bastos enrolou a ponta do bigode observando de canto de olho  o moleque  mais novo que veio junto mas não dizia nada. 

Horas antes o debate tinha sido intenso. Augusto não tinha nenhum problema em ajudar o pai  levando e buscando os aparelhos que concertava. O que lhe quebrava a figura eram as vezes quem o caçula Joca era incumbido de ajuda-lo.

-  Faço duas viagens se for o caso pai.

Argumentava para livrar-se dos préstimos do irmão. 

- Vá logo e não discuta, todos precisam ajudar, além do mais seu irmão não está fazendo nada.

A implicância com Joca não era picuinha pouca.  Entre os irmão havia um bom humor e brincadeiras quase sempre sadias. Mas, como em todo grupo, alguns são menos e outros mais. Augusto era o mais sério dos irmãos e Joca seu extremo oposto. Não faltavam histórias em que Joca havia levado as brincadeiras a um novo patamar. 

Certa vez, por exemplo,  tanto provocou seu irmão mais velho que esse acabou lhe dando um bofete na boca. Joca recuou e começou um choro manhoso cuspindo o que a primeira vista parecia pedaços de dente quebrado. O irmão entrou em desespero, uma coisa era uma briguinha de irmãos, a outra era causar um dano desses. O castigo seria duro demais. Partiu acudir em desespero o caçula que vendo o desespero do irmão começou a rir. Os pedaços cuspidos eram na verdade  macarrão cru que ele tinha o hábito de roubar da cozinha e comer como petisco.

O grande problema de Augusto com Joca era “a cara”. Joca tinha descoberto  uma “cara” que desconcentrava e causava um riso descontrolado no irmão. Uma expressão, que se bem colocada, no instante certo era irresistível. O aprimoramento da aplicação era o momento. Quando não se podia rir, quanto mais solene a situação, ali era o ponto e Augusto sabia disso e por isso evitava a todo custo que o irmão o acompanhasse em situações de trabalho. 

Dr Bastos já tinha adiantado que o seu filho mais velho tinha tentado ele mesmo descobrir o defeito da máquina. Sem sucesso. 

Augusto firmou os braços pra carregar o aparelho e num puxão seguro levantou-o, só o cabo. 

Voltou o mais rápido que pode a peça no lugar tentando disfarçar o desacerto desistindo na sequencia ciente que teria que pegar uma parte de cada vez. Suas faces brancas mudaram na hora para um vermelho intenso que era tão vivo que um tio já tinha o apelidado de “tomate”

- Como eu disse ao seu pai o Junior...

- Sim sim sem problemas Dr Bastos eu...

Agora era questão de vida ou morte, não poderia olhar para Joca em hipótese alguma. Sabia que estaria a espreita, somente aguardando, tranquilo, paciencioso, fazendo “aquela cara”.

Sem lhe dirigir o olhar tentou uma última manobra entregando-lhe o cabo da enceradeira.

- Vai levando para o carro Joca.

...

- Imagina, eu te espero.

Frustrado abaixou-se para pegar a parte que faltava o mais rápido que podia. Ergueu com firmeza e segurança pela parte do cabo que havia restado. O corpo do aparelho veio quase todo, exceto pelas três escovas perfeitamente alinhadas no chão.

Augusto olhou desconsolado para aquelas três rodelas dispostas tão simetricamente e percebeu a sua total falta de chances contra aquela situação. Alias todos olhavam para as três rodelas, como se fossem reticências materializadas  causadoras daquele constrangedor silêncio.

- É... (lançou Joca)

Augusto derrotado suspirou profundo  e olhou para cara de Joca.

FBarella