PALAVRAS
Primeiro era ninguém e silêncio.
Depois, acolá alguém fez sombra e logo depois o grito.
Alguém ouviu? Saímos do nada e já estamos no outro?
Mudo, ausência de sentido ou plateia.
Logo depois, anotou para não esquecer.
Descreva / desenhe / dite / agrida o silêncio / Grite
Faça uma lista, circunde, aponte. Puxe uma seta, adorne, grife... faça iluminuras
Cacetinhos voadores. Carinhas tristes
Despois escreva, formalize, faça que conste em ata.
Protocole, fotocopie. Reconheça firma e assine.
Papelzinho em branco. Silêncio.
Quem escreve é o que? Maluco quieto falando sozinho?
Carta de amor. Boleto.
“Me lave” escrito na poeira de um vidro.
C e L em meio a um coração talhado a canivete.
Um exame médico dando positivo.
Testamento / Certidão de nascimento.
Papel fino de linho / Papel de saco de cimento.
Planta baixa, lápide. Buraco cheio.
Outro no ventre a caminho.
Nota de esclarecimento ou de repúdio.
Bilhetinho que só diz “sim”.
100 longos anos de solidão.
Recadinho de batom no espelho.
“Carpe Diem” escrito errado na nuca da menina chata.
Mal conselho
Pastor Improvisado, de beabá magro, tropeçando na escrita sagrada, na garagem da sua casa alugada, enfiado num terno emprestado.
“Ó glória..” apela ele repudiando a palavra ingrata.
Já o menino não erra. Devotado e comprometido. Aplicado no catecismo, alcança a graça várias vezes.
Sem medo de ser punido.
FBarella