QUE PENAS
No meu quintal caiu ontem um passarinho.
Mesmo machucado vi que era belo.
Mesmo magoado seu canto era música.
Lamentei o acaso triste e fiz o melhor que podia.
Recolhi... tratei sem esperanças infantis e tolas.
Velho que sou de tantos desencontros, conhecido da morte, seguia conciliado e respeitoso.
A pobre ave não tinha chances e nem eu esperanças.
Mas era de mim fazer o melhor que podia.
Guardo para mim as minhas tristezas. Aos outros são inúteis.
As nossas tristezas para os outros são como sapatos que se deixa à porta.
Dei-lhe abrigo e bálsamos anestésicos.
Sorri cordial e murmurei com minha voz falha melodias alegres improvisadas.
Dia a dia o pássaro não melhorava, mas também não morria.
O curioso é que se vida por ali não tomava um rumo algo num canto esquecido em mim brotava.
Não que me afete. Velho que sou já gostei e fui gostado. Já tive chapéu preferido. Cão caramelo adoçado e outros tipos de amigo.
Se gosto, gosto e pronto. Se é para chorar, choro e pronto.
Sem mimimi ou eternamente mal-amado.
Deixei que de mim gostassem, fui levando e fui levado.
Cantei seresta, contei segredo.
Amor bom de contar segredo é amor moribundo, não é?
Assim foi, não melhorava e não morria. Até que um dia fui desavisado, quase feliz, para dar-lhe o trato e contar o enredo de sempre de velho chato.
E que dela? A ingrata avezinha.
Na caixa nem uma peninha.
A janela tinha a fresta de ontem alargada.
No muro, o Nestor de dona Guiomar, cor de cartola e com a mesma empáfia, me julgava bem seguro... lambendo a pata.
FBarella