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O ódio é primeiro, o ódio vem antes.

O amor é secundário.

O ódio é primário.

O ódio é mais verdadeiro.

O ódio não tem engano, a não ser o engano do dizer da frase, tanto que vem a desculpa, o arrependimento, o amor tentando suavizar o ódio que escapuliu.

A violência das palavras – o ódio na defesa.

No espaço privado a verdade é rasgada – fala-se cruamente.

A vida seria social no espaço privado?

Quando surge o Eu, ele surge com ódio:

“Poxa, me enganaram nesta casa por cinco anos, eu era o filhinho dos pais, vieram me cuidando, me dando de mamar, limpando a minha bunda, me dando comidinha, levando no médico, querendo que eu me aprumasse melhor, que eu falasse mais direitinho, que eu fosse mais bem comportadinho... – tudo por interesse, esses filhos de uma puta! Meus pais são uns filhos da puta! São sem vergonha! Eles queriam que eu virasse um menininho, um homemzinho, um representante da casa... porra, que sacanagem, olha só que merda, agora eu tenho que ser um Eu! Eu tenho que representar a família, pentear o cabelinho, botar o tenisinho, ir para a escola, não posso posso tirar meleca do nariz, não posso ficar chupando o dedo, usar chupeta, minhas fraldas já tiraram há muito tempo, não posso mais mamar no peito da mamãe, sou um menininho agora, sou mais um tijolo nessa parede social que inferno, me enganaram! Que ódio! Que ódio.

Esse é o ódio primitivo que funda o Eu. O ódio é uma sacada que funda o Eu: ME ENGANARAM!

A obra de Machado de Assis é patográfica: é o pathos escrevendo.

A escrita é pathos, é afeto, o corpo afetado, as Paixões da Alma, escrevem.

A pessoa pensa com suas paixões.

“As neuroses terão que prestar conta do desenvolvimento da alma humana”.

As neuroses em geral, mais do que os afetos: o medo da morte também.

A necessidade de defender a vida, e matar a vida, ó ódio, é o básico, é o fundamento da defesa, inclusive, o ódio é útil para separar.

Quando você está com alguém e está sofrendo muito, o ódio ajuda a separar, tem que odiar aquela pessoa que me traiu, traiu meus projetos, me fez eu me amar nela e eu me enganei me amando a mim mesmo através dela e ela dispensou-me vendo que eu me amava nela me tirou o prazer de eu me amar nela, nessa pessoa, marido ou mulher: cortou o barato.

O Rei Mendigo: eu me amo ajudando o mendigo, eu me salvo para a eterndidade, para Deus, cristão, ajudar o próximo: eu me salvo dando ajuda a uma pessoa que eu penso que precisa de mim, essa pessoa percebendo que eu estou me amando nela, nega, me paga com uma pedrada, me expulsa, não cede, não aceita minha colaboração, aí eu insisto mais ainda, quero me amar, me ajudar, me salvar, sendo bom para ele, e ela percebendo isso, que eu preciso disso, pisa mais ainda, chuta, você não vai se salvar cuidando de mim, seu filho de uma puta!

Quer dizer, o amor tem uma versatilidade incrível, que se a pessoa não percebe essa versatilidade nos jogos do amor, ela vai cair sempre em alguma armadilha do amor.

O critério de Freud de 1915, o ódio é primeiro, ele é fundamento para pensar as relações.

O amor, que é o Eu, o social, é uma capa protetora, um disfarce, porque por debaixo dele tem todo o ódio.

-Agora vai lá e pede desculpa ao seu amiguinho. Vem cá. Senta direitinho, senão, o papai não dá.

A educação infantil vai adestrando para aprender a disfarçar o ódio e ficar bem comportado.