A vida como texto literário - a vida em palavras.
A palavra é um tiro no ouvido.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego. O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles. Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado
O Eu passado para trás quando pensou que estava com a vida resolvido.
O Eu no auge é uma queda – chegar no topo é chegar na desgraça – a ilusão é um logro – O Eu está sendo roubado.
Amar o Eu é amar uma imagem idealizada – a bela bosta.
O Eu é a carne do outro – o churrasco.
O quer tomar no cu cheio de elogios.
Passando pelo verso do verso sendo driblado por si mesmo.
A vida é um constante passar pelo verso e ser passado pelo verso:
Nóis cai, e nóis levanta, meu filho, nóis cai e nóis levanta.
Fênix vai às cinzas e retorna das cinzas várias vezes em vida até cair na cova.
Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a parte que te cabe deste latifúndio
Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É a terra que querias ver dividida
O homem se um ideal, sem nenhuma filosofia