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A grande dificuldade que encontrando para o livro, que eu apelidei de ‘Cruel’, inclusive, Cruel Filosofia do Narcisismo, poderia ser somente Filosofia do Narcisismo, que seria mais suave, sem crueldade, mas o Freud, lá no Mal-Estar, fala do Homem, de Thomas Morus, ‘o homem como lobo do homem’, mal, cruel, mas o lado do Bem não quer ver, nem falar nada, sobre a perversidade, o sadismo, o masoquismo humano, com medo de, falando dele, ao contrário de compreender, estimular, incentivar.

A dificuldade do acolhimento desse livro na filosofia, na psicologia, na psicanálise, talvez até na literatura, esteja o fato de que o livro mostra a psicanálise como uma obra pessoal do Freud.

A psicanálise não pode ser, eles acham, compreendida, como uma obra pessoal, da pessoa do Freud. Eles não gostariam de ver a psicanálise como uma obra não científica.

Uma obra pessoal não é científica.

Ora, o próprio Freud disse ‘A psicanálise é a obra de minha vida’, é uma reflexão do Freud sobre a vida, a partir da visão que ele tem da vida

Em dois momentos bem claros ele entra na obra quando ela está sob ameaça, de Jung e de Rank, e escreve lá no meio dos artigos dele, um artigo autobiográfico. Publica a tragédia da ingratidão. Publica o artigo O Narcisismo, para contrapor dois tipos de Narcisismo: O Narcisismo de Jung, a libido de interesse, que não investiga o Narcisismo, Jung não investiga, ele é somente egoísta, como diz o Putnam.

Ele é somente o grande palestrante, o Jung. O Freud resolveu fazer um artigo sobre o Narcisismo para alertar. O Narcisismo fala de um ideal do Eu, um Ideal, situações ideais, Narciso. E o idealismo é uma tragédia no ser humano.

O idealismo é uma metafísica do Eu exagerada.

Como a obra do Freud não pode ser lida como obra pessoal, e o livro trata da obra do Freud como obra pessoal, ele teria que ser lido, esse livro então, como se fosse Machado de Assis escrevendo uma reflexão sobre o mundo, sobre o homem, uma reflexão ao estilo de Freud, tentando formar conceitos, porque Machado é puramente literário, ele não forma conceitos não, o conceito fica escondido no texto de Machado: a Moral, a Ética, os Costumes, o Erotismo, a Dissimulação, a Histérica, o Obsessivo, o ciúme paranoico de Bentinho contra o estilo perverso de Capitu na dissimulação total que ela faz.

Quer dizer, o Dom Casmurro, o Brás Cubas, o Quincas Borba, são obras filosóficas mas escritas em estilo literário.

O Freud é uma obra filosófica escrita em estilo conceitual, e como é conceitual, não aceitam muito que ela seja lida como uma obra pessoal, uma reflexão pessoal do Freud, sobre a psique humana, o médico da alma. O médico da alma não poderia estar fazendo uma reflexão sobre a psique humana, o Freud.

De modos que então livro está encontrando dificuldade de acolhimento, e ele vai ter que ser feito como fez o Piero Manzoni: não pediu licença a ninguém, e, se pedisse, iriam desaconselhá-lo a fazer potinhos de merda. Provavelmente, Machado de Assis também, se pedisse licença, autorização para que botasse um morto para escrever um livro, iriam dizer “poxa, Machado, você vai sujar seu nome fazendo isso”.

E os outros, Edgar Allan Poe, imagina só, se o Edgar Allan Poe fosse pedir licença para escrever o ‘Demônio da Perversidade’, o Gato Preto...