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Narcisismo entre Capitu e Bentinho

Com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim?

Realmente, andava cosido às saias dela, mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto.

Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer.

Em todos esses sonhos andávamos unidinhos.

Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples repetição do dia, alguma frase, algum gesto.

Também eu os contava.

Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava...

Fez-se cor de pitanga.

Pois, francamente, só agora entendia a emoção que me davam essas e outras confidências.

É melhor saber antes cedo do que tarde, mas mesmo tarde ainda é melhor do que nunca.

Naquele instante, a eterna Verdade não valeria mais que ele, nem a eterna Bondade, nem as demais Virtudes eternas.

Eu amava Capitu! Capitu amava-me!

E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, trêmulas e crentes de abarcar o mundo.

Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie.

Naturalmente por ser minha. Naturalmente também por ser a primeira.

— Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.