Uma das maneiras de defender a psicanálise atual, que virou institucionalizada, é atacando ela.
Um ataque como forma de defesa.
A psicanálise tornou-se uma forma estruturada, no pós-estruturalismo.
O Pastor do Real
O psicanalista é o que bota o real para pastar. O Real seria uma ovelha na mão do psicanalista. O psicanalista seria o homem que domina o Real, quando é justamente o contrário, é o Real que domina o ser humano, o Real é anárquico, desordeiro, disruptivo, desengonçado, o Real desorganiza o organizado, o falar do Pastor do Real, estruturalismo do Real, estruturar o Real, já o Real já é psicose, querer estruturar o Real é cair na psicose.
O Real é o indomável, o impossível de ser dominado, de ser controlado...
O sujeito humano é o Real. O ser humano não é terráqueo não, ele é um animal falante esburacador...
Piero Manzoni foi o homem que quebrou a arte então, cagou na arte.
O Real é o homem, que vem quebrar aquilo que está estruturado.
Dito desse modo, para salvar a psicanálise é preciso ir contra ela. É um paradoxo então você querer salvar alguma coisa indo contra.
É impossível estruturar um ser humano
Estão querendo domesticar o ser humano, um bicho indomável. Quem domina o homem? O que vai dominar o homem?
Para salvar a psicanálise dessa maldade que estão querendo fazer, que é dominar o ser humano, domesticar o homem, fazer ele ficar um bicho domesticado, é preciso atacar.
O ataque que está sendo feito ao Freud no livro A Cruel Filosofia do Narcisismo, é trazer o Freud do pedestal e colocá-lo no nível humano.
Então, é paradoxo do início ao fim.
Esses então que estão defendendo o Freud como um Deus, estão, na verdade, destruindo a psicanálise.
E para salvar dessa destruição tem que mostrar o Freud como ser humano. A proposta é essa, a da Filosofia do Narcisismo. Cruel. Porque é contra o Freud para defender o Freud. Para mostrar um erro crasso do Freud, que não percebeu o Narcisismo dele mesmo, nas interpretações psicanalíticas. A frase ‘Freud explica’ é bizarra. Tão repetida.
Porque querem dizer que Freud é o homem que tiraria o homem da neurose. Uma tremenda de uma falsidade.
Então, a ideia de salvar o Freud é dizer o Freud é um ser humano, errou nas interpretações.
-Ô Homem dos Lobos, vem cá, esse sonho que você teve aí, dos lobos lá na árvore, vou te falar uma coisa, Homem dos Lobos, isso aí era quando tinha um ano e meio de idade, você viu seu pai num coito a tergo, penetrando por trás, igual um cachorro, ou um lobo, a sua mãe...
E o Homem dos Lobos lá deitado no divã escutando o Freud falar isso para ele, teve uma psicose.
-Era isso, então, Freud, meu pai comendo a minha mãe por trás, e os lobos na árvore, tem esse significado? Freud explica isso? Freud, pelo amor de Deus, eu com um ano e meio vi isso, e estou problemático, tenho problemas devido a essa cena?
O Freud quebrou a cara com um livro de Schreber. E o Lacan com a obra de Joyce. A obra de Joyce veio mostrar ao Lacan que o homem é completamente desestruturado. Ele chamou de Lalangue, balbucios, aquela leitura do Finnegans Wake que ninguém entende.
Então a gente salva a psicanálise mostrando que ela não salva o ser humano.
Um pouquinho mais Machado de Assis, que é um perverso profundo e ardiloso que revela o submundo humano de modo literário. Essa é a proposta do livro A Cruel Filosofia do Narcisismo, que salva Freud atacando Freud do pedestal e colocando ele como um ser humano igual somos todos nós.