Celiana Maria dos Santos é Professora aposentada pela Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC/BA), Pedagoga do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), Mestra em Relações Étnico-raciais pelo Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro Celso Suckow (CEFET/RJ), terapeuta holística, poetisa e autora do livro “Yemanjá, a rainha do mar. Quem é Yemanjá no imaginário de pescadores do Rio Vermelho?” Meu livro é fruto de uma curiosidade epistemológica em torno de cultura. Costumamos ouvir de cultura ideias, noções, concepções aligeiradas, que a reduzem a um espaço de reducionismos ou de simplismos. Quando se quer referir a cultura de imediato surge uma possibilidade de sua vinculação a saberes socialmente constituídos sob o aval do intelecto. Ser culto ou não ser culto, ser mais ou menos culto, possuir cultura inferior ou cultura superior, enfim. Todavia, ao acenarmos para o campo de estudos culturais, da antropologia e outras ciências humanas/sociais podemos descortinar espaços de profundas complexidades e contradições, de dor e de prazer, de tensões e de ressignificações. O fio condutor deste livro é a tentativa de compreender os sentidos de identidade cultural e sua ênfase em substratos de uma cultura, de que no Brasil, pouco conhecemos: a cultura negra. Para tanto, optamos por um ícone, uma representação da cosmogonia africana aportada no Brasil, desde o advento dos africanos escravizados há pouco mais de três séculos: Yemanjá. Trata-se, portanto, de tentativa de desvelamento de elementos contraditórios e confluentes a um só tempo, tanto nas concepções de cultura, quanto nas práticas sociais em que se dão. Ao referenciar a Yemanjá, enquanto representação da cultura africana no Brasil, buscou-se o exercício de problematização em torno de aspectos ideologizantes que atravessam o conceito de cultura e as relações de poder neles implícitos. Nesse contexto, aparece demarcado o lugar de menor importância atribuído ao povo negro, evidenciado pela relação verticalizada entre culturas em destaque. A representação imagética de uma Yemanjá branca e em forma de sereia destoa diametralmente da imagem de Yemanjá, extraída por Pierre Verger nos antigos templos iorubas. Ou seja: o predomínio da cultura europeia segue fazendo escola. Atualmente, o campo artístico de Salvador tem se manifestado com mais evidências de uma negritude assumida, a partir da assunção do reconhecimento da importância da cultura negra. Nas produções musicais, nas produções poéticas, por exemplo, é possível constatar o destaque nas formas de se vestir, de se pentear, de grupos de pretas(os). Entretanto, indicadores sociais derivados de escolaridade, saúde, habitação, ocupação espacial, segurança, lazer, renda, evidenciam uma espécie de segregação mal dissimulada. Talvez, um dos fatores influenciadores dessas contradições seria a hierarquização entre culturas imanentes ao Brasil. Embora Sodré questione as noções de purismos em uma ou outra cultura, o que observamos no caso da Yemanjá branca sereia do Rio Vermelho é que a imagem se contrapõe perante uma identidade cultural de povos africanos traficados para o Brasil nos séculos passados. Estas impressões se dão no âmbito da(s) cultura(s) em confronto na diáspora. Conforme Bhabha, a cultura seria “o lugar de subversão e de transgressão, lugar da instabilidade, da indecibilidade e da solidariedade”.