Listen

Description

A economista, pesquisadora e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Júlia Braga está no 42º episódio do Política ao Quadrado. PEC dos Precatórios, geração de emprego, dívida pública interna, inflação e política de preços da Petrobras foram alguns dos temas tratados no programa. A convidada também discutiu a respeito dos desafios impostos às mulheres economistas pelo machismo estrutural, que alcança as carreiras econômicas, ainda dominadas, majoritariamente, por homens.Segundo Júlia, a batalha pela aprovação da “PEC dos Precatórios” - classificada pelo governo federal como fundamental para financiar o Auxílio-Brasil - é “uma solução muito ruim para um problema incontornável”. Para a economista, essa dificuldade intransponível seria o teto de gastos. De acordo com Júlia, não há exemplos de países que se desenvolveram por meio de redução dos gastos públicos em relação ao Produto Interno Bruto (PIB): “o teto já não era apropriado para uma economia em desenvolvimento, com a pandemia então, ele ficou proibitivo.” No que concerne às possibilidades de crescimento econômico e de geração de empregos no Brasil, a economista assevera que a fórmula defendida pelo mainstream ortodoxo está desgastada: retirar o Estado da economia, para que o mercado, por si só, aloque os recursos, teria acarretado, nas últimas décadas, em grande parte dos países ocidentais, tanto redução do crescimento econômico e da geração de empregos de qualidade quanto aumento da desigualdade de renda. Consequentemente, de acordo com Júlia, os últimos anos teriam fortalecido a tese de que os Estados e suas políticas fiscais são essenciais para o desenvolvimento econômico, além de explicitado que capital e trabalho são complementares, e não concorrentes, mesma lógica a ser aplicada à relação investimento público-investimento privado. 

No que tange à dívida pública interna brasileira, a economista afirma que “não existe um número mágico para indicar qual deve ser a proporção da dívida pública de um país em relação a seu PIB”. Júlia avança no argumento, ao explicar que, embora nossa dívida pública venha caindo ao longo de 2021, assim como outros indicadores fiscais venham melhorando, houve estagnação da renda e aumento da pobreza: “a economia não consegue reagir em face da falta de poder de compra das famílias”. Em relação à inflação enfrentada pelos brasileiros neste momento, a economista a classifica como sendo muito dramática para os mais pobres, uma vez que causada, precipuamente, pelo aumento de preços da energia e dos alimentos. Segundo Júlia, o processo inflacionário atual tem como componentes o preço das commodities no mercado internacional e a desvalorização do Real frente ao dólar, que vem ocorrendo desde o início da pandemia. A economista complementa: “a inflação só não aumenta mais, porque o mercado de trabalho a segura, pois as pessoas que já estavam empregadas antes da pandemia não estão conseguindo reajustes salariais maiores que a inflação, e as pessoas que estão entrando no mercado de trabalho agora estão entrando com salários iniciais muito baixos, porque entram, em sua maioria, com vínculos informais”.

Ainda no contexto do debate acerca da inflação atual, Júlia assevera que, idealmente, a política de preços da Petrobras deveria buscar um equilíbrio entre o que foi feito anteriormente a 2016 (controle de preços) – o que, segundo a economista, acabou tendo consequências econômico-financeiras ruins para a empresa – e essa escolha atual de repasse total ao consumidor de toda variação de preço. Pela regra atual, essas variações – preço do petróleo no mercado internacional e variação cambial – têm de ser integralmente repassadas ao consumidor, para preservar a margem de lucro, em dólar, tanto da própria empresa quanto de seus investidores internacionais.