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O Professor Titular de Literatura Comparada da UERJ, pesquisador e ensaísta João Cezar de Castro Rocha está no 48º episódio do Política ao Quadrado. O tema crucial do debate foi a análise do recém-lançado livro Contra o Sistema da Corrupção, de autoria do ex-juiz e pré-candidato à Presidência da República Sérgio Moro. Já de início, o convidado é peremptório: com base no discurso apresentado na obra, poder-se-ia dizer que, assim como o Presidente Bolsonaro, Moro, caso eleito, não pretende governar para todos os brasileiros. Segundo João Cezar, ainda como magistrado, o erro seminal de Sérgio Moro teria sido atuar como um juiz que combate algo ou alguém, e não como um representante da magistratura cuja função crucial deveria ser aplicar a lei de maneira justa. O professor avança o argumento, ao afirmar que tal contexto engendra no pré-candidato a convicção de que o problema principal a ser enfrentado no Brasil resume-se à corrupção. De acordo com o convidado, as forças-tarefas estão para o ex-juiz como o nióbio está para Bolsonaro – “soluções mágicas para problemas complexos”.

João Cezar assevera que o verdadeiro objetivo do livro é caracterizar Moro como um missionário, um messias que, por sacrificar-se pelo bem comum, não deve ser constrangido por limites, mesmo que muitos destes fundamentem o Estado Democrático de Direito. O professor argumenta que a obra apresenta dois interlocutores distintos: o interlocutor explícito, que seria o povo brasileiro, pré-definido pelo ex-juiz já na dedicatória do livro – Sérgio Moro pretenderia, mais uma vez, engajar esse grupo no espírito da Operação Lava-Jato; e o interlocutor implícito, os Estados Unidos da América, país cujos interesses e cultura parecem exercer grande influência sobre Moro – as referências a filmes hollywoodianos e ao American way of life permeiam toda a obra.

O convidado conclui que Contra o Sistema da Corrupção revelaria todo o projeto do ex-juiz: “o livro é uma involuntária delação premiada de si mesmo”. Ao ser indagado acerca do impacto que esse projeto, se efetivado, viria a ter no Brasil, o professor é enfático: Moro seria a figura central do que João Cezar categoriza como “bolsonarismo sem Bolsonaro” ou “pnochetismo com voto”. O convidado faz uma analogia desse movimento socioeconômico e político que ele aponta existir no Brasil com a ditadura chilena (1973/1990), que teria transformado nosso vizinho sul-americano em um “laboratório mundial para a introdução forçada de um neoliberalismo absolutamente selvagem”.

Por fim, ao debater a respeito do legado de Olavo de Carvalho, morto em 24 de janeiro deste ano, o professor declara que o sistema de crenças olavista continuará sendo a base da tentativa de reeleição de Bolsonaro: será menos uma campanha de defesa do governo e mais uma campanha de projeção do fantasma da esquerda e do comunismo, acredita o convidado. Segundo João Cezar, é essencial que as forças democráticas e os cidadãos brasileiros se posicionem contra esse “efeito Olavo de Carvalho”, consubstanciado na retórica do ódio, que reduz o outro a um inimigo a ser eliminado por meio de uma linguagem de violência simbólica incomum.

Quem faz o quadrado? O Política ao Quadrado é o podcast de primeira que vai ao ar toda segunda. A produção independente tem apresentação de Lívia Carolina e Caio Barros, técnica e vídeo por Kauê Pinto, edição e mixagem de Brunno Rossetti e produção de Germano Neto.