Ele estava naquele momento da vida em que se acostumara consigo mesmo. Já não aguentava o seu tamanho. As coisas não cabiam dentro dele. Ficava lustrando os mesmos cacarecos na estante do seu coração. Não ampliava amizades. Não esfregava mais a lâmpada dos desejos. Prostrou-se diante da imagem que faziam dele. Acomodou-se no tapete que lhe presentearam com toda a certeza daquilo que se tornaria. Plantou-se ali e a sombra tem a mesma envergadura de proteção. Mas há um momento da vida da gente que a rotina é rompida; seja por grandes abalos estruturais ou um leve roçar de um sussurro diferente. E para ele chegou esse momento de mudar. Amanhã mesmo, iria tomar a decisão certa. Aquela que adiou, postergou; o sonho que sempre desejo; aquele ímpeto reprimido. Melhor! Ele ia mudar agora, pois era agora que começava a se desacostumar consigo mesmo.