Sou fim de Abril sem rosto num
espelho partido, sou fim de Abril que sangra ferido, sou fim de Abril em
calendário gasto vencido, sou fim de Abril em corpo morto esquecido.
Sou fim de Abril de chama apagada, sou fim de Abril em estrada gasta na
madrugada, sou fim de Abril na encruzilhada, sou fim de Abril sozinho em
jangada.
E se me disseres em silêncio, com os teus beijos deslizando nos meus
lábios petrificados, que das folhas das árvores vão nascer asas de anjos vindos
do fundo infinito céu; e se me disseres em silêncio, com a tua saliva navegando
nas minhas pestanas gélidas, que do vento das dunas vão nascer oceanos vindos
do eco das quatro estrelas do sul.
Oh!... E se me pintares nas mãos perfuradas o
arco-íris.
Oh!... E se me
esculpires no meu corpo rasgado outra pele.
Oh!... E se me
escreveres nas costas ensanguentadas asas.
Oh!... E se me
cerzires de novo o meu coração cortado.
E se me disseres tudo isso em silêncio, neste final de Abril sem rosto
num espelho partido, espaço jaz de luz destruído, sinal do tempo enlouquecido,
ruido discordante sem sentido, final lento nas ruas caído.
SIM, se me disseres tudo isso em silêncio; prometo-te que no princípio
de Junho, passeamo-nos de mãos dadas a ver as gaivotas no mar.