Uma nova visão do conceito de utopia
Tenho uma má notícia para lhes dar. A má notícia que tenho a vos dar, sobretudo depois de ter escutado os nossos amigos que falaram antes de mim, é que eu não sou utopista. E a pior notícia ainda é que considero a utopia, ou o conceito de utopia, não só inútil como também tão negativo como a idéia de que, quando morrermos, todos, vamos ao paraíso.
A utopia, segundo se diz, começou com Thomas Moore, com seu livro A Utopia, publicado em 1516. E aí se coloca o nascimento de uma palavra, de uma idéia, mas poderíamos ir muito mais atrás. Poderíamos ir a Platão. No fundo, a utopia nasce sem nome e talvez seja o que está ainda a atrapalhar aqui, tudo isso, seja o nome. Porque, a rigor, tudo o que foi dito antes poderia ter sido dito com igual rigor, com igual propriedade, com igual pertinência, sem a intenção da palavra utopia.
Demonstrarei, ou pelo menos tentarei demonstrar mais adiante, por que há uma questão que é indissociável, da utopia, ou do pensamento utópico, ou do anseio do ser humano por melhorar a vida, e não só no sentido material de melhorá-la, mas também numa outra dimensão: na dimensão espiritual, na dimensão ética, na dimensão moral. Está indissociavelmente ligado, e parece que não, à revitalização e, se quiserem, à reinvenção da democracia.
Mas vamos primeiramente a Dom Quixote. Mas, antes de falar de Dom Quixote, queria dizer que os 5 bilhões de pessoas que vivem na miséria, conforme nos declarou Ignacio Ramonet (que havia falado na palestra antes de Saramago), na palavra utopia não significam rigorosamente nada. Os 5 bilhões de pessoas que vivem na miséria, esses a quem se referiu Ignacio Ramonet, no conceito da palavra, nas sílabas, no som de utopia, repito, não significa nada. E também não significará muito depois de que tenham suas necessidades essenciais satisfeitas, que passem também a usar ou a divulgar ou a utilizar um discurso mais ou menos emotivo da palavra utopia, como se isso viesse a acrescentar algo àquilo que foi conquistado com trabalho, com luta.