"Somos esculpidos e esculpimos o ambiente em que vivemos. A leitura de mundo e de nós mesmos sofre influências e influencia o contexto que nos abriga. Reiteradamente estamos em dialógica com nossas vizinhanças: o que nos cerca, esvazia e preenche. Tempo, lugar, relações e circunstâncias ditam assuntos, questões que nos inquietam e pacificam ao longo da existência.
A ciência afere e constata a ligação mente-corpo, há milênios reconhecida. A chave psico-soma é reiteradamente acionada em nós, quer tenhamos ou não consciência do processo. Assim, o que fazemos ou permitimos que nos façam pode ter implicações físicas.
Quando se tem um pensamento o cérebro produz substâncias que abrem as janelas dos sentimentos, os chamados neuropeptídeos. Eles acionam emoções que se materializam no corpo em amplo espectro. A depender do tipo de pensamento podem variar desde o prazer até a dor.
Ainda que não tenhamos controle sobre grande parte dos acontecimentos, podemos gerenciar nossa forma de lidar com os mesmos. Isso implica em reflexão e autoconhecimento.
(...) O avanço nas ciências médicas e exames de imagens tem apontado um fato intrigante e ao mesmo tempo fascinante: nosso sistema imunológico não só escuta nossos monólogos internos como reage de acordo com as estruturas do nosso pensamento. Ao que tudo indica a resposta de nosso organismo às adversidades cotidianas varia de acordo com a força ou debilidade do amor por nós mesmos, das conexões afetivas e prazerosas, das experiências sublimes que nos elevam e possibilitam sensações de inteireza. Do que se deduz carregarmos verdadeiras farmácias internas, remédios existenciais que poderiam ser acionados mediante pequenos ajustes nos modos próprios de nos colocarmos em movimento.
A genética até então por muitos apontada como um determinismo passa a ser relativizada a ponto de ecoarem vozes, cada vez em maior número e mais enfáticas: quase nada interfere na condição humana!
Entre elas, a do neuropsiquiatra Boris Cyrulnik, professor da Universidade de Toulon / França, referência internacional da chamada resiliência, capacidade do ser humano superar a dor. Ele assinala que mesmo o sofrimento integrando o real da condição humana, a qualidade do que nos rodeia e das relações que estabelecemos vida a fora nos possibilita deixar de sofrer pela representação que fazemos desse real.
(...) O exposto evidencia serem os espaços efetivamente seguros os afetivamente saudáveis, isso vale tanto para mundo interno quanto externo, tanto para relações com a gente mesmo quanto com o meio em que estamos inseridos. Uma amorosidade ciosa, respeitosa e deliberante deveria alcançar singularidades e pluralidades, dentro e fora de nós... deveria atentamente enlaçar dimensões individuais e coletivas, setores privados e públicos... deveria orientar e regular políticas desde a primeira infância, promovendo comunidades de acolhimento, apoio e desenvolvimento.
Nunca é demais lembrar que a melhoria do mundo é engendrada no contínuo aprimoramento humano. Quanto maior o enraizamento no senso de identidade maior a abertura para senso de pertencimento. Como nos ensina a tradição africana expressa no conceito de ubuntu, eu sou porque nós somos! A humanidade, habitando a dimensão do eu e do outro, parece se converter em experiência e angariar aprendizado na medida em que acolhe a alteridade e conjuga o nós. Em outras palavras, exercitamos o melhor na gente (o humano que nos aproxima do divino) legitimando os espaços relacionais existentes entre eu e tu, permitindo a entrada de outros e recebendo confiantes a oportunidade de aprendizado dela decorrente."