"...Acordei refletindo sobre a efemeridade dos laços, incomodada com a pouca profundidade, olhar reduzido e honestidade das relações, seja da gente com a gente mesmo ou da gente com a vida. O que não deixa de ser curiosa redundância quando pensamos na palavra Vida ser capaz de englobar a nós mesmos e todo nosso entorno, desde fora até dentro. De certo modo esse termo, equívoco / ambíguo por natureza, comporta sentidos tão diversos quanto às subjetividades que o movimentam. E aí, de onde meu olhar alcança, confunde-se com o que em Filosofia Clínica nomina-se Estrutura de Pensamento: o que nos preenche, habita, suporta, possibilita e abriga.
O volátil nem sempre se desfaz. Ainda que modifique seu estado de apresentação, altere tempos e espaços, introduzindo variáveis até então não percebidas no corriqueiro cotidiano do mundo circunstancial... Outro jeito, nova forma de nos percebermos e de nos localizarmos existencialmente, como se pressão e temperatura ambiente vaporizassem certezas, relativizassem saberes e questionassem verdades tidas como inabaláveis.
A vida nos movimenta, nós nos movimentamos pela vida ou nós que movimentamos a vida? O que dá liga entre viventes e a vida, o que possibilita interseções positivas e duradouras?
Pessoas se aproximam e afastam, emitem opiniões e desferem juízos, muitas vezes antecipados, sem perceberem alterados seus ângulos de visão e a si próprios. O efêmero é passageiro, temporário e transitório a partir da coisa em si ou do olhar de quem olha?!
A vida nos movimenta, nós nos movimentamos pela vida ou nós que movimentamos a vida? Presas em meio à pressa de imediatismos e utilitarismos exacerbados, quase sucumbimos como seres relacionais capazes de autocrítica e correções de rota.
No fio da navalha entre fantasia e realidade, bifurcação que descortina outros horizontes possíveis, realidade fantástica: corda bamba para uns, chão firme para outros. Criação humana em leitura divina e/ou criação divina em leitura humana?!
Nesse jogo de forças - buscando resultados rápidos, massageando egos e insuflando paixões - muitos se apresentam como portadores da Verdade, como se ela estanque fosse e não decorresse de inúmeras coconstruções efetivadas vida a fora. Por vezes não se percebem ventríloquos de onipotência e presença emudecedora, por outras intencionalmente manipulam, enfeitiçam e adormecem.
Vocês talvez possam estar se perguntando, assim como eu faço agora, por que cargas d´água trago um tema tão espinhoso, ainda que trivial, logo às vésperas da folia de carnaval? Ora Minha Gente, como se isso não fizesse parte da nossa experiência humana, temporariamente
circunscrita na matéria. Não nos avexemos não... Seja na entrega aos blocos ou no retiro das festas, nas cidades ou matas, serra ou litoral, que a catarse venha com consciência e que Baco nos acompanhe, mas não ouse nos entorpecer para roubar a cena... Nossa história, bem ou mal, entre erros e acertos, somos nós que escrevemos... Que o aprendizado prossiga!"
(Ana Rita de Calazans Perine)