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Justiça! Infelizmente o que menos se detecta em nossa sociedade, com um direito anacrônico e necrosado, que não só muito pouco ou quase nada se debruça sobre a alteridade como dela radicalmente se afasta, sempre que na aplicação da norma jurídica não se tem o devido cuidado de particularizar o universal que é a lei.

Se dar visibilidade aos "ninguéns" (que habitam em nós e entre nós), fazendo deles os "alguéns" que são, seria capaz de resgatar e potencializar o que há de humanidade em nós, qual a razão de tamanha resistência?!

orior.com.br/ana-rita

OS NINGUÉNS

As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.

Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:

Que não são embora sejam.

Que não falam idiomas, falam dialetos.

Que não praticam religiões, praticam superstições.

Que não fazem arte, fazem artesanato.

Que não são seres humanos, são recursos humanos.

Que não têm cultura, têm folclore.

Que não têm cara, têm braços.

Que não têm nome, têm número.

Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.

Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

(Eduardo Galeano, em “O Livro dos Abraços”)