"Percepção e Presença são temas marcantes na Filosofia, com destaque para a tradição fenomenológica, tendo Edmund Husserl como expoente, coloca o corpo e a experiência vivida no centro da compreensão do ser no mundo.
Destaco, ainda, Merleau-Ponty (rejeita a separação intelectualista entre corpo e mente), Heidegger (o “ser aí”, dimensão espaço temporal onde o ser se encontra e exercita seu modo de questionar a existência e ir, por meio dela, se tornando) e Jacques Derrida (questiona a metafísica da presença, regatando o papel da ausência, da diferença e do devir).
Fenomenologia, estudo do fenômeno: como as coisas se mostram à consciência, pela consciência que se tem das coisas, com percepção e presença.
Fenômeno como algo que se mostra e é aprendido. É necessário não saber para ver. Para capturar o inédito se faz necessário uma abertura ao novo de todo dia. Envolve “EPOQUÉ”, suspensão de juízo. Em alguns momentos é preciso esquecer para lembrar e ser atravessado como a primeira vez diante do germinar da semente, do pôr de sol, do olhar da pessoa amada, da luz e da sombra nos dias e em nós...
Percepção não é apenas ver, é ser tocado pelo mundo através do corpo. Dos sentidos que geram sensações, que provocam sentimentos, que mobilizam pensamento e ação.
Presença não é apenas estar presente, é engajamento pleno do sujeito, com sua história e corporeidade. Não é só estar junto, é ser junto, habitando espaços relacionais. Presença enraíza consciência no mundo e na intersubjetividade, na relação com o mundo, de fora e de dentro.
Quer sejam pensados ou vividos, nossos corpos são eminentemente relacionais. Pensemos na respiração: inspiramos oxigênio, liberado das plantas e expiramos gás carbônico, matéria-prima da fotossíntese.
No fenômeno e em cada um de nós a pluridimensionalidade existe em uma sucessão de agoras... Trazendo Lacan, transitaríamos cotidianamente entre real (impossível de ser nomeado), simbólico (linguagem e significantes) e imaginário (imagens, sentido e noção de eu). Trazendo Platão, que difundiu a visão grega clássica, revisitado por Jung, a realidade seria uma amálgama entre os planos inteligível (mundo arquetípico, das ideias) e sensível (mundo concreto, dos fatos).
Diante destas pequenas observações nota-se estar a percepção também ligada ao repertório, contido na especificidade do sujeito, que dita sua capacidade de absorver o objeto, de legitimar a vida, de exercitar empatia, de respeitar diferenças e crescer com elas, sem deixar de custodiar dignidades, impondo limites sempre que necessários para que estas (dignidades) não sucumbam."
Quanto ao documentário mencionado:
“MICROCOSMOS – O Povo da Relva” / França, 1996. Direção: Claude Nuridsany e Marie Perennou. Produção: Jacques Perrin. Trilha Sonora; Bruno Coulais. Grande Prêmio Técnico / Cannes, 1996. Melhor fotografia, som, edição, música original e produtor / César, 1997.
Ana Rita de Calazans Perine