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Valado dos Frades, 15 de fevereiro de 2023

As memórias de um povo são o baú onde podemos encontrar a nossa identidade e definir os valores que desejamos para o futuro. Há coisas que nos marcam, pelas mais diversas razões, mas são sobretudo as vivências que ajudam a moldar o nosso caminho e a nossa alma. Uma das tradições mais interessantes do nosso povo acontecia na ida ao rio de Longe, ali pertinho de Valado dos Frades, onde as nazarenas lavavam as maiores peças de roupa, desde cobertores, a mantas ou a lençóis. Era preciso um dia de sol para que a romaria se desse. E a pé, ou mais tarde nas carrinhas de caixa aberta do peixe, lá iam elas, subindo a caminho do Monte de São Bartolomeu e descendo pela encosta até à zona do nasce água, para irem ao rio de Longe. Era preciso um dia inteiro, para esfregar, lavar, estender e secar as peças. Naquele tempo não havia ATL, as crianças tinham liberdade para brincarem sozinhas ou em grupo, inventarem as suas próprias ocupações e desfrutarem da natureza. Recordo-me bem de ir ao rio de Longe com a minha mãe, onde desfrutei da primeira piscina da minha vida, onde dei mergulhos e tentei nadar. E onde, ao final do dia, tinha direito a um valente pão com manteiga e o melhor café da avó que já saboreei. Há coisas que não se esquecem e sabores que nos ficam. E é por isso que, passados mais de 40 anos desses dias em família, basta-me um pão carregado de manteiga e um púcaro de café e fico tratado.