Pederneira, 8 de fevereiro de 2023
A nossa terra tem muitas especificidades e o culto pelos mortos é uma delas. Conheço poucas localidades onde as pessoas relevem tanto os familiares após a morte como a nossa. E talvez isso ajude a explicar por que razão o nosso cemitério é tão extenso, sobretudo se compararmos com outras vilas e cidades do nosso país. Afinal, a dignidade dos nossos entes queridos a isso obriga. Ouvi, durante anos, muitos responsáveis autárquicos denotar preocupação com o alargamento do cemitério da Pederneira. E percebia-se porquê. A falta de espaço causava apreensão na comunidade. Nos últimos anos, contudo, o tema parece ter caído em desuso. Hoje em dia, a cremação é uma opção cada vez mais em voga e talvez por isso as coisas mudem de forma tão abrupta. Ou é isso, ou, então, a nossa terra anda muito distraída. Há dias fui ao cemitério. Não sou daquelas pessoas de frequentar aquele espaço muitas vezes, mas há momentos em que também sinto essa necessidade, por razões diversas. Foi quando me deparei com uma construção praticamente contígua ao cemitério. Não sei quem é o promotor, nem me interessa, certamente cumpre todos os requisitos e foi aprovado em todas as instâncias. Calculo é que quem queira comercializar aqueles apartamentos esteja na dúvida do slogan a utilizar: se optam por casa com vista para a praia da Nazaré ou por casa com vista para o cemitério. Modernices.