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Anteontem perdemos, em questão de horas, Gal Costa e o Rolando Boldrin. E a primeira coisa que pensei, perdão, foi que bom que vi Milton Nascimento cantar há uma semana, no último show dele em São Paulo — o último de todos é logo mais em Belo Horizonte.

Vou aos shows, de qualquer tamanho ou tipo. Sou uma pessoa pequena, só enxergo ombros, o som chega embolado nos meus ouvidos e, no geral, não me sinto bem no meio de muita gente. Escolhi ir nesse por captar um sentimento de despedida de algo grandioso. Como a Elle publicou sobre a morte da Gal essa semana: estamos vendo o fim de uma era luminosa da música brasileira.

Quando a banda que acompanhava Bituca começou os primeiros acordes da melodia de "Ponta de Areia", meu coração começou a desaguar. Não parou ainda. Essas músicas são uma parte enorme de quem somos. Músicas do Milton, do Lô Borges. Músicas cantadas pela Elis, pela Gal, pela Bethânia. Músicas do Caetano, do Gil, do Chico Buarque, do Djavan. Músicas da Violeta Parra, da Mercedes Sosa. Ouvi-las, na voz de Bituca acompanhado por centenas de pessoas na plateia, me levou para um lugar que eu tinha esquecido.

Através do coro da platéia que incentivava Bituca a continuar cantando apesar do cansaço,  achei algo com que me conectar: a música que minha mãe cantava no carro quando eu era criança, a música que a banda do meu pai tocava em todos os shows, a música que eu cantei uma vez, em outra vida, caminhando de mãos dadas na praia de Itaúnas quando ainda era uma vila de chão batido.

E então, teve o dia seguinte.

Há 35 anos, uma tia-avó me escreveu uma carta. Só li agora — agora mesmo, sábado passado, após o show do Milton.

A carta é longa e escrita em letra miudinha. Fala de viagens e de livros, bichos e música. E fala da minha família também. Ler foi como ouvir as músicas na noite anterior, reencontrar um chão que eu tinha perdido — quando? Não sei dizer. Envelhecer tem essa qualidade surreal de nos tornar quem sempre fomos, mas eu tô só na metade da vida e ainda tem muito que não sei, não entendo, não enxergo. Mas sei que sem as músicas eu não estaria preparada para ler e portanto, não tinha mesmo que ter lido antes.

No meu peito, agora, tudo é uma grande bagunça sul-americana com cheiro de café passado, com fumo solto em cima de papel de pão, com jornais em cima da mesa da cozinha, a tv mostrando os protestos pelas eleições diretas, adultos falando alto, crianças se metendo em problema, gatos, cães, plantas, papagaios e em algum lugar a Gal cantando que o amor é azulzinho.

Continuo procurando o sentido, apesar do meu mapa astral que é todo água e fogo e apesar do meu coração de vendaval. Sempre com os pés firmes na terra, sempre com a alma repleta de chão.



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