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ansiedade

Já tem um tempo. Não sei quando começou isso de que só me sinto em paz dentro de casa. O problema é que essa casa de agora não é minha casa, não me reconheço nem dentro nem fora dela, por mais agradável que seja — há um jardim onde crianças tomam sol, há vizinhos simpáticos com filhotes de cachorro, há alguém que toca piano todas as tardes, descendo o som em cascata para as áreas comuns. Mas não é meu lugar.

Moro no térreo, e se alguém olhar com atenção consegue me ver da rua. Não que exista muito para ver: todos os dias, o dia inteiro, na mesma posição, sentada atrás do computador aberto. Da tela adiante não vejo nada, porque minha miopia piorou demais em seis meses.

Não sei explicar qual o gatilho da ansiedade que me faz estática por minutos, às vezes horas, nesse lugar. Provavelmente gatilhos, no plural, e mutáveis. Nunca estiveram tão à flor da pele quanto agora, e vem piorando desde que o mundo, ou o que achávamos que era esse mundo, começou a desabar. Era melhor se fosse de uma vez, uma marretada certeira, ao invés desse longo processo em que partes das paredes vão caindo um pouco todos os dias, mostrando que aquilo que está do outro lado não é o que você queria, mas está lá e uma hora você vai ter que olhar de frente.

A analista pergunta como sei que é ansiedade e tento descrever coisas muito físicas: aperto na garganta, frio na barriga, suadeira nas mãos, dor de cabeça, boca seca. Ela me interrompe e diz que, sim, ansiedade é uma coisa muito física mesmo, mas eu sei de onde ela vem? O que sai da minha boca é um achar que vem de tudo que não está dito. Mas tem algo de um medo muito real também.

É sempre muito quando há uma crise a caminho. Não consigo me concentrar em nada, mesmo em coisas simples do trabalho ou decisões banais como ir até a esquina almoçar PF. Quando dou por mim, já perdi umas duas horas empacada no mesmo ponto, apesar de ter disponível o que preciso para seguir em frente . Os recursos estão ali, ao alcance, mas meu braço não se move na direção deles.

Algumas pessoas comem balinhas, outras roem as unhas, fumam cigarro, rabiscam papel, olham demais o celular. Eu me limito a olhar para frente de forma vaga, e esperar. Penso em levantar e jogar uma água no rosto, beber água do filtro, mas a ideia de ir até o banheiro ou a cozinha parece uma odisséia e me sinto cansada antes de levantar da cadeira. Penso em pedir ajuda para amigos ,mas não consigo lembrar o nome de ninguém, ainda mais alguém com quem poderia falar sobre isso assim no meio de uma manhã de quinta feira.

É essa paralisia que entrega o que preciso saber. Tento lembrar que como todo vagalhão, a crise passa. É importante não tentar controlar o relógio, nem me preocupar com a duração do transe ansioso e nem superanalisar caminhos de saída. Esperar. Olhar pela janela sem os óculos.

Andei sentindo tanto ódio que comecei a andar na rua com um martelo dentro do bolsa, como se fosse revidar fisicamente naquilo que me aflige. Recentemente, usei o martelo para pendurar quadros e dar alguma cor nas paredes do apartamento novo e depois o guardei de volta na caixa de ferramentas, possivelmente evitando uma tragédia.

A questão é que a raiva passou e o que entrou no lugar dela foi medo. Nem toda esperança estrelada do mundo é capaz de me fazer esquecer que a reconstrução é muito longa e que há ainda várias marretas por aí tentando impedi-la.

Ainda assim: é preciso começar. E a previsão do tempo diz que domingo, aqui em São Paulo, a chuva dá uma trégua e o sol volta.

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