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Coceira fantasma

Todos os dias eu acordo nesse apartamento onde eu não deveria estar, mas estou, e sigo mais ou menos a mesma rotina: acordo muito cedo, limpo a boca, faço xixi, me peso, me visto, passo o café no moedor manual, cozinho dois ovos, às vezes torradas, às vezes tapioca, às vezes cuscuz. Às vezes tomo chá também. Banho costumo tomar de noite, mas faço o que hoje chamam de "skin care", que é passar uns creminhos na cara. Às vezes escrevo, às vezes não. Baixo podcasts de notícias enquanto me visto pra academia. Amo o ar fresco do jardim do prédio - esse que não é meu. Antes das nove já estou trabalhando. Tem sido assim. Mas eu já tive outras rotinas. Eu já fui outra pessoa, antes disso tudo que tá aí. E essa outra pessoa teve outras manhãs.

Em Ushuaia (fala “ussuaia") repartindo pedaços de pão caseiro com azeite e investigando mapas dos fiordes da Patagônia, com um senhorzinho argentino que, ao longo de uma semana, uma manhã por vez, convenceu a pegar o último barco para a Isla Navarino.

Vendo o sol nascer dourado pela janela do trem em algum lugar do Oregon.

Em Brasilândia, MS, com meu avô me animando a levantar da cama antes das cinco para pegar leite fresco na ordenha da manhã — a xícara dele com um dedinho de conhaque, a minha com Nescau.

No San Lorenzo de Roma, sentindo o cheiro das torradas queimando no forninho enquanto eu,  estupefata, olhava o pedaço de muralha romana nos fundos da casa.

Tomando rooibos e comendo biscoitos vendo os wildebeests pastando ao lado da varanda em Gondwana, sul da África do Sul.

Em um hotel cinco estrelas em Aguas Calientes, onde um fiozinho de água fria descia da montanha por dentro do meu quarto para alcançar o rio lamacento no mesmo vale que os Incas olhavam de Machu Picchu.

Surpreendida por uma boxer bebê na manhã do meu aniversário de dez anos em Ribeirão Pires, com minha mãe ainda dormindo.

Brava com mais uma manhã de neblina e garoa sem trégua em Corpach, no inverno das terras altas da Escócia.

Ouvindo as preces da mesquita ao lado do hotel em Kanyakumari, para botar os pés no único lugar do mundo onde três mares se encontram (e onde, dizem, jogaram as cinzas do Mahatma).  

Comendo tapiocas com queijo e sucos de frutas em um barco a caminho do Xixuaú, Roraima, assustada com a fumaça das queimadas.

Com meu filho me chamando para sair do berço na casa onde moramos por pouco tempo na Granja Viana — as melhores manhãs da minha vida.

Com suco de morango geladinho para espantar a ressaca em algum lugar da Praça da República.

Sentindo cheiro de pão caseiro assando no forno da cozinha no segundo andar de uma casa de trezentos anos no Dorsoduro de Veneza, a cidade mais linda do mundo (no inverno).

Comendo torrada de pacotinho e chocolate quente de máquina em um hotel de beira de rodovia, sem charme e com cheiro de gasolina, como são quase todos os hotéis dos EUA.

Com uma jarrinha de suco fresco das laranjas do Alentejo, na cidade mais bonita de Portugal: Évora.

Recebendo café preto, quente, sem açúcar e recém passado, para tomar de dois em uma xícara só, vendo telejornal da manhã, em um lugar de São Paulo que não existe mais.

A gente se engana em qualquer lugar. Em Durban, Glasgow, Carapicuíba, Porto, Trivandrum, Londres, Guatemala City, Palmas, Oaxaca, Liverpool ou São Francisco, onde alguma coisa no lençol do hotel me causou uma doença de pele — não fui embora pq era o hotel mais barato da cidade, e o único que eu podia pagar.

De alguma forma tudo isso, e mais, cabe aqui nesse apartamento onde eu não deveria estar. Em cima da estante de livros, uma mala azul, que foi da minha tia aeromoça, me vigia, insistindo que é preciso voltar a fazer as malas e criar novas histórias. Dentro dela, memórias que seguem coçando sem existir, como a ansiedade de separação de um membro fantasma.

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