Tá todo mundo tentando: descansar
Há um dia lindo lá fora. Mas não do jeito que você provavelmente pensa quando a gente fala ”dia lindo“. Há um dia de chuva forte, céu cinza, com o jeito que vai ficar assim pelas próximas muitas horas. Eu gosto de chuva quando tô em casa e quando não é chuva demais. Me dá uma sensação de céu limpo.
Em dias assim não sinto ansiedade de sair. Andei vendo mais gente do que o meu normal (normalmente introspectiva, normalmente caseira, normalmente tranquila). Aqui dentro tem laranja lima pra fazer suco, tem livro pra ler, tem coisa pra escrever, tem cama arrumada com lençóis frescos e a companhia dos meus gatos no sofá. Um dia qualquer, embalado por boas lembranças da última semana (flores! uma lhama! jantar! gols do Richarlisson!). Ideal para fazer vários nadas.
Todavia, ela: a ansiedade. Sim, sempre há muita coisa pra fazer. E quanto mais a lista cresce na minha cabeça (de coisas imediatas e necessárias tipo fazer mercado até coisas hipotéticas e trabalhosas como trocar o forro do sofá azul) menos me sinto capaz de realizar algo. Descansar, inclusive.
Todo mundo com quem falo está exausto de alguma coisa, normalmente de muitas coisas. Exaustos de 2012 pra cá, exaustos de noticiário surreal, exaustos de preço de comida e boleto de aluguel, exaustos de desesperança mesmo quando a esperança parece começar a dar as caras.
É que foi difícil mesmo. Nos últimos anos cada um se virou como conseguiu, muitos ficaram no caminho, muitos perderam muita coisa e de alguma forma, todo mundo lutou. Tudo urgente. Identificar e denunciar racismo e homofobia, combater a fome e o autoritarismo, não desistir da educação, não ceder à desinformação, não pirar.
E não pirar cansa.
Junte-se isso ao esforço diário e espanto que foi (é?) viver debaixo da ditadura do absurdo. Pelo menos quatro anos de uma montanha russa que só vai pra baixo, cada curva em velocidade cada vez maior, desligando nossa capacidade de espanto, de revolta e de ação — mas nem todos, nem tudo, nem sempre. Eu e você seguimos fazendo o que era possível fazer, às vezes nem isso, quase sempre muito longe do ideal. E agora: vai acabar?
Vontade de chorar de exaustão, disse uma amiga, ainda que tenhamos trabalho, teto, água limpa, uma privada que funciona. Ainda que tenhamos planos. Ainda que tenhamos o conforto do lar em um dia para descansar. Há que descansar antes de cumprir qualquer coisa, mesmo que sem fechar os olhos.
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