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Tá todo mundo tentando: flanar

Eu não sei quando foi que deixei de andar pela cidade. Provavelmente, efeito da pandemia. Antes eu andava muito, e sempre. Mas sinto que tenho caminhado cada vez menos. Talvez tenha a ver com uma proximidade das coisas no bairro novo que, de fato, não exigem que eu ande muito. Um amigo definiu bem: agora eu moro na bolha.

Andar, já escrevi aqui antes, sempre foi parte importante da minha vida e, num nível mais exagerado, até um traço de personalidade. Sempre gostei muito de andar, quando criança tinha o hábito de sair andando sem rumo certo, às vezes deixando minha mãe preocupada, mas na maior parte das vezes voltado antes que alguém desse pela minha falta. Caminho como processo terapêutico, rota de fuga, estratégia de isolamento ou para matar pequenas e grandes curiosidades. Na fazenda dos meus avós, no Mato Grosso, eu saia andando da casa na direção de qualquer pasto, me sentindo meio heroína de romance inglês, uma jovem Jane Eyre no cerrado.

Mais tarde, andar era uma forma de matar tempo quando eu não queria ir pra escola (e eu nunca queria ir pra escola) e também para reconhecer os novos territórios entre as minhas muitas mudanças de casa.

E as viagens, claro. Aprendi viajando que não tem jeito melhor de conhecer um lugar do que caminhar por ele. Andar para entender. Poderia escrever um livro inteiro, como a Lauren Elkin em "Flaneuse", sobre andar em cidades que não conheço bem.

Descobrir como nos EUA, fora de NY e SF, as cidades não são feitas para pedestres. Como andar na Índia é caminhar o tempo todo numa situação de saída de festival. Como é seguro caminhar pelas vielas de Alfama, bêbada, às três da manhã. Caminhei pela Banglatown de Londres, por estradas na Escócia e por trilhas na Patagônia. Pelo mercado de Chichicastenango na Guatemala, pela PCT no Oregon, tentando entender o Google Maps em Veneza, a esmo por Buenos Aires, Durban, Cochin. Sempre com um caderno na bolsa, mais uma influenciada pela imagem da Geração Perdida escrevendo nos cafés parisienses do período entre guerras, embevecida pela minha própria imagem, viciada na minha própria angústia, tentando colocar qualquer coisa pra fora, fosse pelas mãos ou pelos pés.

E, claro, por São Paulo: minha cidade, a cidade que me vi obrigada a reconhecer, com quem tantas vezes rompi, perdoei e fiz as pazes e onde me vi presa, por vontade própria, quando tive que parar de viajar. De certo modo, morar por anos na Av Paulista me fez andar cada vez menos, ainda que eu tenha botado minhas solas e saltos em cada centímetro daqueles 3,5 km de calçadas.

Agora, em outro bairro e em outra vida, levei uns seis meses até acatar a vontade de sair andando — e isso aconteceu numa noite de domingo, na chuva, uma hora inteira passando por cima de tudo que tem de errado no centro de SP, fumando cigarro e me sentindo meio James Dean naquela foto icônica, sem nenhum medo de algo dar errado e sabendo reconhecer a hora de parar.

Leia mais em http://gaiapassarelli.substack.com/flanar



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