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Description

O apartamento era pequeno e escuro, não mais que um corredor, mas ela só viu quando empurrou a porta, forçando a entrada. A avó sempre dizia que porta fechada é sinal pra não entrar, mas ela fez que não importava e empurrou o peso contra a madeira, abrindo primeiro uma fresta e aos poucos uma passagem apertada. Do outro lado, o escuro escondia uma pequena trilha, apertada entre a floresta crescida dos vasos de planta abandonados que ninguém lembrou de podar e que tinham tomado conta das paredes, do que havia sido mobília e objetos, do teto, das janelas, das frestas do chão de taco. Flor nenhuma, sol só de relance, água muita, terra também. Suficiente para sustentar uma massa de folhas, galhos retorcidos e trepadeiras crescendo sem controle. Existem folhagens que são capazes de crescer com quase nada, e uma hora a própria mistura de folhas mortas serve de alimento. Existem plantas capazes de abrir buracos nas folhas para deixar o sol passar para as outras que se alimentam da luz, quando ela vem. Existem plantas que crescem rígidas pra cima, como espadas. E plantas que se espalham, macias, na horizontal, fazendo como que mantas no chão. Todas buscam a mesma coisa: espaço. Ela não precisava entender de vida vegetal para achar um caminho, saber detalhes sobre como elas cresciam ou do que precisavam. Podia ignorar a biologia do solo e a rotina de luz porque sabia que, na marra, era possível abrir passagem e ir avançando, um passo de cada vez. Fechou a porta atrás de si, ignorando instintos e fazendo pouco caso de conselhos. Pisou os dois pés ao mesmo tempo, depois um de cada vez, seguindo a trilha por dentro do apartamento abafado, escuro e triste, num prédio feio, numa parte da cidade que já tinha morrido. Não tentou explicar — algumas decisões não tem motivo, a vida vem. A trilha seguia sempre cheia de curvas, às vezes a obrigando a andar abaixada, sempre impedindo a visão do que havia à frente, sempre escondendo o que havia dos lados, e depois de alguns passos também já não era possível enxergar com clareza o que tinha ficado para trás. Ela desviava de galhos e espinhos, encaixando o corpo como dava no espaço que aparecia, pegando de relance partes pequenas do céu. Às vezes precisava engatinhar, ralando as palmas das mãos e os joelhos na terra do chão, escura e malcheirosa, misturada a pedaços de tecido, chorume, restos de embalagens plásticas propositalmente esquecidas em lugar visível, chumaços de cabelo, tocos de ossos, borras de café. Ignorava, porque a partir de algum momento era preciso continuar. E mesmo quando a trilha interrompeu, era preciso continuar. Se achou perdida, à deriva no escuro, numa imensidão de folhas, lama e musgo, mas era preciso continuar. Tentou subir num galho para ver se enxergava algum caminho por cima da copa das árvores. Era difícil, porque tudo tinha musgo demais, alguns galhos tinham espinhos demais, tudo escorregava ou feria, mas ela era leve e ágil e não era sua primeira vez perdida na mata. Agarrou num galho, apoiou o pé direito em outro, apoiou as costas em mais um e foi subindo sempre devagar mas sempre na direção do que podia ser ar fresco. Quando o galho não sustentou o peso, ela caiu, mas a queda também mostrou o caminho: ali na frente, só mais uns metros, tinha trilha de novo. Tinha?



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