Te desejo uma fé enorme. Em qualquer coisa, não importa. Aquela fé que a gente teve um dia. Me deseje também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que nos faça acreditar em tudo outra vez.
Caio F, em Morangos Mofados
Acordei sozinha antes das seis da manhã. Descansada, o corpo e a cabeça em paz. Foi uma boa semana.
No geral, tem sido um bom mês. Me fiz dizer alguns nãos, apertando muito o cinto, para tentar ter setembro como um mês de descanso físico e mental, para conseguir ver pessoas, reatar laços, dormir sempre que possível, me exercitar quando der vontade, ler muito, escrever sempre.
Férias não, porque não dá. É mais uma preparação para o presente próximo, me dando espaço para limpar o organismo depois de vomitar a âncora de metal enferrujado que me pesava no estômago.
Quase todas as pessoas com quem falo ensaiam um sentimento parecido, ainda um pouco acanhado, de que estamos em preparo, de que há uma alvorada logo ali. Estamos nos recompondo, limpando, abrindo espaço para o que virá.
Mesmo assim: tenho sonhado pouco.
Não o sonho sem controle de quando a gente dorme — esses, que todo mundo sonha, mesmo quem não lembra, tem são constantes. Depois que comecei a acordar lentamente, me dando tempo para absorver o filminho do inconsciente, meus sonhos estão cada vez mais intensos e (acho) cheios de sinais.
Não é misticismo, é só uma coisa de prestar atenção. Tente, você, dormir sem o celular no quarto, tente acordar devagar e prestando atenção aos sinais do seu corpo, tente não fugir do que acontece na sua cabeça, tente valorizar os sinais que sua voz te manda.
O sonho que anda vindo pouco é outro: aquele do sonhar acordada, da divagação. Aquele sonhar esperançoso.
Aquele sonhar de deitar no sofá pra dar um tempo, ficar olhando pro teto, pensando no que se quer, no que se espera, no que vem por aí. Uma coisa assim muito Peixes com Lua em Câncer que tenho mas perdi porque nos últimos anos me vi obrigada a suprimir. Manter a cabeça fora da água era difícil demais — sonhar, imagine!
Não sou só eu. A realidade tem sido tão dura que nosso sonhar, desejar, ansiar para além daquilo que é carnal e imediato sumiu. Pra quê eu vou pensar no que pode ser melhor, uma casa, uma relação, um país, se IRL a coisa tem sido tão... indizível?
Mas (chame de dois de outubro, de medicação eficiente, de análise, de axé, do que for) sinto esse jeitinho de sonhar voltando. É assim por aí? Um jeito de permitir sonhar, desejar, ansiar por aquilo que mereço. De saber que tal coisa está acontecendo dentro da minha cabeça e que não devo satisfação para ninguém, mas que alguns desses sonhos podem, sim, vir a ser. Aquele emprego, aquele amor, aquela viagem, aquele look, aquela festa, aquele jantar.
Aquele futuro.
Eu posso, podemos querer que seja melhor do que já foi, melhor do que tem sido. Podemos parar de viver para o que é pequeno e limitante, sair desse círculo de se satisfazer com o que tem para hoje. Teve ontem. Foi um lixo. E o que terá amanhã pode ser outra coisa.
Só que pra isso, antes, é preciso sonhar.
E votar. Dia dois tem eleição. Vote.