Pt 2
“Você vai ter que aprender a ficar sozinho, cara”.
Não era um problema para muitos felinos, mas o Luca não gostava de ficar sozinho. Talvez o começo de vida sempre perto de Lara o tenha o deixado acostumado demais com a presença constante de outro ser, talvez o apartamento fosse excessivamente grande, talvez fosse o frio de São Paulo, talvez fosse o aspecto sinistro da falta de mobília depois que ficava escuro. De qualquer forma: ele não gostava quando ela saia de perto. E a única forma de mostrar esse desgosto para a humana era ignora-la quando voltava do trabalho, sempre tarde da noite. Nos primeiros dias, Luca até corria desesperado pra porta ao ouvir o tilintar das chaves subindo de elevador, e se esfregava nas pernas e mordiscava canelas para pedir com o corpinho: fica aqui, não vai mais embora.
Mas como o afeto não a fazia ficar, agora Luca tentava outro método. Ao ouvir as chaves, corria para se esconder em algum canto do apartamento. Acompanhava de longe Lara deixando suas coisas em cima do sofá da sala, indo ao banheiro, bebendo água na cozinha e fazendo psit-psit pela casa. Mas ele não arredava as patas de cima do armário do quarto, do interior de uma gaveta, debaixo da cama, de dentro do cesto de roupas sujas. Ela que o encontrasse.