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Pt 3

A primeira vez que ouvi, foi no meio de uma manhã qualquer. A humana já tinha saído pra trabalhar, correndo como em todos os dias das ultimas semanas, e eu fiquei debaixo do edredom, com preguiça de levantar junto. De longe, ouvi algo como que arranhando a parede por dentro, o ruído agudo levantando minhas orelhas por reflexo.

Mas mais importante era o cheiro. Foi isso que me tirou da cama. Do outro lado da massa corrida e da tinta, por dentro dos tijolos, tinha alguma coisa que eu reconhecia como um cheiro dos tempos de rua. Outros bichos, talvez milhares deles, vivendo em algum lugar depois da parede.

Domesticado, eu tinha nojo de ratos. Mas havia um chamado de alguma coisa mais forte, alguma coisa que não podia explicar, um resquício de uma outra época, há não muito tempo, uma época em que aqueles ruídos e aqueles cheiros significavam a única chance de alimento quente.

*

Levantei arqueando as costas e deixei os radares internos localizarem a fonte do som. Saí cheirando o rodapé e os cantos, procurando uma saída de ar, um pedaço da casa onde o cheiro viesse com mais força. Meu olfato de gato me levou com facilidade até um buraco no canto do quartinho, atrás da cozinha, o canto onde a humana deixava umas caixas sem uso, jornais e revistas velhos, baldes e material de limpeza. Ali o cheiro de rato era nítido. E a fonte dele também: um buraco sujo e escuro, na quina da parede, atrás da pilha de jornal velho. Um buraco pequeno, mas já frouxo o suficiente para dar passagem.

Eu sabia que ratos não usavam o buraco para entrar no apartamento. Talvez preferissem outros buracos em outros apartamentos sem gatos residentes — ratos são muitas coisas, mas não são idiotas. Talvez sejam confusos, uma vez que são numerosos demais, sempre desprezados e famintos, destinados a viver de sobras, um bicho comum que a maioria das pessoas ignora. Ainda assim: sobreviventes.

*

A humana nem percebeu, mas todos os dias eu cutucava o buraco como se fosse uma ferida. Um dia passava só uma pata, logo já encaixava o ombro, depois parte da cabeça. Não demorei pra conseguir esmagar o corpo todo pra dentro da parede.

Do outro lado, prédio abrigava um mundo não visto por humanos, um mundo feito de cimento e de metal, poeira e umidade, baratas e aranhas, longe do conforto e segurança que reinavam do meu lado da parede. Os ratos, espertos, sabiam que eu estava vindo. Sabiam que eu ia passar ali. Por isso, quando cheguei, na primeira vez não vi nenhum. Só ouvia os barulhos das patinhas minúsculas e velozes, sentia seus cheiros mudando de lugar.

Dessas primeiras saídas, sempre botando só a cara pra dentro do buraco, a humana notou só um pouco de poeira nos meus pêlos, uma sujeira banal que ela tirava com as mãos. De resto, continuava tudo igual. A humana não tinha ideia que uma vez fora do nosso espaço eu tinha uma vida própria, secreta, só minha, que me dava uma satisfação que entendia como independência mas que também tinha gosto de vingança por ela não estar comigo todo o tempo. Todas as manhãs antes de sair, e de noite ao voltar, ela trocava minha comida, colocava água fresca na minha travessa, nunca deixava faltar nada, mas sempre sem notar o quanto estava perto do buraco da parede. Do meu buraco. Era só olhar.

Uma manhã, como em todas as outras, saí da cama depois de Lara, arrumei a direção dos pêlos com a língua e ouvi um barulho diferente. Fui em silêncio até o quartinho em tempo de surpreender um deles, um rato, em cima da minha ração fresca. Cabia dentro da travessa de comida. O pêlo cinza, o rabo rosa, os olhos vermelhos e o cheiro de lixo não escondiam: aquilo era mais presa do que alimento. Em uma fração de segundo, desapareceu pra dentro da parede, deixando o buraco agora largo suficiente pra deixar passar uma família.

Mais pela diversão de correr atrás de algo e menos como castigo pela ousadia do roedor em vir até meu canto, fui atrás. Uma vez dentro da parede, tudo era deles e eles estavam em todos os lugares, todos iguais, todos horríveis, centenas de rabos pelados e olhos vermelhos. Nenhum se atreveu a chegar perto de mim. Podia ter escolhido qualquer um. Mas reconheci o cheiro do infrator que ousou passar pra dentro de casa.

No frenesi da caçada, atravessei andares, escalei canos, investiguei quinas. O cheiro só cessou quando finalmente peguei o bicho pelo pescoço, apertando e tirando sangue até ele parar de guinchar. Metálico, ocre e ralo, ele perdeu a graça. Com nojo, deixei pra morrer ali na frente da plateia de roedores e só então percebi os cheiros voltando com tudo, cheiros que meu olfato não mais reconhecia.

Em um instante, tudo era silêncio e eu não tinha a mínima ideia de há quanto tempo estava fora, não sabia mais qual a direção do apartamento, da minha humana, minha cama, minha ração, minha janela sempre aberta, meu raio de sol batendo no tapete, meu conforto, meu lugar.

Pra dentro da parede, sem luz e com excesso de cheiro e sujeira, o caminho de volta podia ser qualquer um.

Podia também não existir.



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