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🏢 Um prédio novo

De novo, o novo apartamento não tinha nada.

Janelas emperradas, piso ancestral de cerâmica feia meio quebrada, tomadas padrão anos 70 e lustres e arandelas do tempo da construção do prédio — algo como 1958. Charmoso, sim, como quase tudo no novo bairro: uma área plana e arborizada, plena de faixas de pedestres e de pequenos comércios. Mas um charme meio decrépito, ansiando por  renovação.

Entrei pela porta, de madeira escura por fora e branca por dentro, no dia mais frio do ano, há pouco mais de seis meses. Tudo era caixa de papelão e poeira. Tomei um banho de banheira para tentar espantar o gelado dos ossos, sem sequer perceber que a água estava suja. Nos dois dias seguintes senti tanto frio, de dentro pra fora, que logo estava no pronto-socorro, coberta por umas cinco camadas de roupa enquanto as pessoas na rua usavam camiseta.

Fiz muitas mudanças na vida e essa foi de longe a mais difícil. Talvez por ter muitas camadas. Em um período curto, encerrei um projeto importante e um relacionamento ruim, ao mesmo tempo em que voltei pro SPC. Tive que descobrir o funcionamento do lugar ao meu redor, constantemente assombrada pela certeza de ter tomado uma má decisão — eu gostava de onde estava antes e agora tinha que encarar, sozinha e doente, os resultados de uma mudança que não deveria ter acontecido.

Levei uns três meses para começar a sentir calor, a ter rotina, a achar os lugares certos para as coisas. Só me percebi instalada quando, numa tarde qualquer, o sol rasgou o ar por uma das (grandes) janelas da sala, os gatos entenderam o recado e começaram a se esticar.

Agora, finalmente, verão: sou amiga do jornaleiro, sei os nomes dos porteiros, posso abrir fiado no bar & lanches da esquina, o dono do restaurante sírio me dá doces de presente e eu finalmente encontrei um supermercado pra chamar de meu. Quase toda a mobília segue onde a encostei quando entrei pela porta naquela manhã gelada, mas agora meus santos têm um lugar pra estar, (quase) todas as tomadas funcionam, as paredes estão cheias, os travesseiros são novos e a planta do meu quarto cresce que nem mato, sempre um bom sinal.

Como é férias, as crianças brincam o dia inteiro na área comum. Talvez animados pela presença solar, os idosos passam a tarde nos bancos, conversando. Casais jovens e gente solta, como eu, circulam o dia todo, abrindo e fechando o portão ao lado da guarita, para passear com os cachorros. O Pianista Misterioso continua fazendo trilha sonora de quase todos os dias, e agora tenho um vizinho de cima que, como eu, gosta de White Lotus.

O verde do jardim anda decorado por fiozinhos de luzes de Natal e acende de noite. Para os morcegos que circulam ali de noite, não fez a menor diferença. Sei que logo mais o inverno volta, mas agora sei também o motivo de tanto frio: um amplo vão vazio debaixo do meu chão. Para isso: tapetes. Quando o frio voltar, terei tapetes coloridos.

🛌 Férias

A partir de amanhã, a TTMT vai tirar uma folguinha. Volto na segunda quinzena de janeiro. 

Leia toda essa edição em http://gaiapassarelli.substack.com/p/um-predio-novo



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