oi, amigo exausto 💌
acertei o status?
ê, amanda… que jeito torto de começar uma carta natalina, viu? - diria Déia Freitas, a rainha do deboche mais amada do Brasil. [te apresento a Déia depois, no P.S.]
mas de deboche eu também tenho um tanto, de honestidade outro muito. então vou pular a parte que a gente diz que natal é tempo de perdão, renovação e fé e ir direto pra conversa mais franca que eu poderia ter: estamos emocionalmente exaustos.
eu sei, na carta passada eu convoquei Van Gogh e seus girassóis 🌻 pra elevar nosso pensamento, cutuquei tua capacidade de ver beleza em tudo, disse o quanto é maravilhoso estar vivo, sobreviver no caos. é, sim, um belo milagre!
mas todo milagre nasce
de mil lágrimas. 💧
é a lei da física, do cosmos, ou apenas da poeta Alice Ruiz:
.
"Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre
.
Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre
.
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre."
eu adoro esse poema 💜. aconchegado na zélia, nem se fala. percebe a força disso:
a cada mil lágrimas sai um milagre.
gota a gota. sal a sal. milagre [e mistério] sempre há de pintar por aí! [fiz milágrimas abraçar esotérico de Gil, rs, referência poética nunca é demais, não é mesmo? 😁]
trouxe lágrimas da Alice hoje, véspera de natal, pra que a gente encontre um lugar quente nessa pele tão humana que é ser luz e sombra.
espero que entendas, não tô recusando a fantasia de natal com essa carta pé no chão. nem em ano "apo-calipso" tenho dom pra ser Grinch, o personagem que odeia natal. eu sou o oposto. 🎄
vou te contar uma lenda minha: minha mãe adora lembrar o quanto foi difícil me trazer a notícia de que papai noel era mentira. não aceitei, como não se aceita uma encomenda indesejada. me tirar a fantasia foi um presente que não pedi e demorei a trazer pro lado de dentro. [será que já trouxe? talvez ainda não 👀✨]
que eu e tu possamos nos encantar com os pisca-piscas, as lendas e as canções jingle bells sobre amar o próximo, sempre, mas sem esquecer que nossas lágrimas também merecem perdão [e às vezes um cantinho escuro com chá fumegando].
tudo bem chorar e esperançar ao mesmo tempo. somos feitos de sal e de milagre. estar vivo pra todas as sensações é a verdadeira beleza.
daqui, te ofereço meu ombro virtual e cartinhas de amor. te envio minha melhor energia por um natal leve e fico na espera da tua correspondência! online ou física. sim, leste certo: FÍSICA, VIA CORREIOS DO BRASIL!
essa ideia linda surgiu da minha psicóloga e leitora Ticiana. vamos inaugurar um correio dos velhos tempos?
meu CEP: 05435-020. Rua Rodesia, 121, apto 41. bairro Sumarezinho, São Paulo/SP.
ah, que emoção vai ser receber carta tua! prometo responder da mesma forma 🥰 um beijo enorme.
com amor, amanda. 💜
P.S.
✏️ li um texto sintonizado com a carta de hoje, um ótimo complemento à nossa reflexão. o escritor Jeferson Tenório problematiza todas as pressões de fim de ano por bem-estar e produtividade. chega de peso desnecessário em nossas vidas!
✏️ no começo da carta falei da Déia Freitas, a rainha do deboche. ela apresenta o Não Inviabilize, segundo podcast mais ouvido no Spotify. nada mais é do que um canal de fofoca sobre desconhecidos, rsrs. é como se Déia estivesse no nosso sofá, contando histórias, rindo e trocando palpite sobre vidas que, inclusive, podem dar muitos contos literários. ótimo pra ouvir lavando louça ou cozinhando quitutes [sem crueldade] pro natal!
✏️ pra te mostrar meu lado mimosinho, rs 😅, trago a dica de um trio de filmes natalinos! a lista é livre dos clichês tipo Simplesmente Amor, Esqueceram de Mim e O amor não tira férias [não que não adore os 3! inclusive trapaceei e dei jeito de indicá-los dizendo que não vou indicar haha]
🍿Klaus [Netflix] - animação lindíssima sobre a suposta origem da lenda do papai noel. ele existe e eu acredito!
🍿Uma segunda chance para amar [HBO] - sim, o nome é como todos os outros, mas o filme não é. achei muito bonito.
🍿Uma invenção de natal [Netflix] - melhor filme de natal que já vi. é um musical fantasticamente bem produzido. é arte pura! número 1 no meu 💜☺️
verso
pensando sobre os sentimentos confusos que nos visitam nessa época do ano, tentei capturar um ou dois pra destrinchar. não pude. não soube dizer o que eram, se eram, de onde vieram. havia um terceiro que se apresentou, de papel passado, mas não permaneceu. sentiu a falta de porquê e vôou.
restou um poema:
.
submerso 💧
.
sinto gosto de nada
na falta de um nome
não existe, o nome
para uma e outra emoção
.é como morder maçã de praia
comer comida sem mar
matar a sede com água destratada
matar, mata
mas se põe esquisito no fundo
bem no fundo da língua
.
não ter um nome pra chamar de seu
é o que faz mais solitário um sentimento só
.
acontece que também sinto gosto de falta
no nada de um nome
o nome, esse existe
mas o significado, nada
nada nada nada
o significado nada como peixe na piracema
despreza um lado da água
em busca de outro
e a palavra primeira resta naufragada
vazia, murcha em submersão
.
não ter verdade pra encher as sílabas
é o que faz perder-se uma palavra na multidão.