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oi 💌

te escrevo no quentinho da primeira luz da manhã. entre meus olhos e a página branca que tento preencher passam milhares de pequeninas criaturas amarelas, com asas e pernas e braços e desejos. são fadas, agora vejo bem.

trazidas pelos raios de sol, minhas sininhos são tão reais quanto um sentimento; quanto uma fome grande que só quem sente é que sabe. não duvide, apenas escute, leia. derrube as fronteiras do possível por um instante. venha ver pelos meus olhos, que tal? 🥲

esse é o grande convite, venha fantasiar comigo! é o pacto que firmam os que escrevem e os que se entregam a ler poesia, fantasia, ficção. os que criam realismo fantástico, então, só sabem viver sob esse contrato seríssimo em que combinamos nos absurdar com o normal e normalizar o absurdo - o bom absurdo da fantasia. 

tudo pode, tudo é, tudo temos. ler e escrever é morar num universo multiverso! ✨

comecei a carta te contando das fadas que aqui estão porque foi uma noite louca. sonhos exagerados se abocanhando pra começar e terminar uns aos outros. foram tantos que nem posso lembrar. 

acordei lamentando terem partido justo quando abri os olhos, poxavida. sem eles eu já não podia levantar da cama e patinar de pijama numa pista de gelo até a cozinha. nem pegar água com as mãos direto da fonte que cai da janela, nem ver a água mudar de cor. não pude sequer o básico: sentir meus pés saírem do chão e flutuar bairro afora... 

"olá, vizinho, como estão teus pés? minhas nuvens estão ótimas! pega as galochas que uma nuvem leste vai desabar."

doidice boa é imaginar.

tenho uma teoria [alô harvard! 🤓] que talvez sejamos todos feitos dessa substância manifesta em sonhos, beijos e alucinações: a imaginação. o ingrediente secreto das crianças perseguido pela adultice, torturado e morto nas cruzadas dos ocupados contra o sonho.

nas escolas, os anos viraram valentões e colocaram a coitada da imaginação nos cantos das salas, segurando a placa: me deixe pra depois

um dia ela cansou do castigo e evadiu. 

se aqui existia um jardim, a prática vida arrancou-lhe as flores. as borboletas foram viver em Macondo, os feitiços foram parar nas varinhas de Hogwarts, os mundos paralelos, esses ficaram escondidos no país que Alice visitou. 

tudo nos escapa e parace ser o fim. até que um dia o convite chega: quer ver pelos meus olhos as fadas amarelas?

pode ter sido o pequeno respiro no impossível que elevou o português Fernão Mendes Pinto a ícone da literatura de viagem. ele viveu no século 17, quando as jornadas ainda nem eram mochilões mas grandes navegações de caravelas. ele fez da sua vida um grande relato e deixou de herança às filhas - a todos nós.

nas histórias que contou ter vivido entre as águas continentais de Portugal e os mares do oriente, a caneta dele pincelou acontecimentos que não chegaram a ser exatamente… fatos. ou fatos que não beiraram acontecer, se é que me entende rsrs 😅

o testemunho fantasioso rendeu apelido ao escritor, que na época até incorporou a piada com carinho: chamava-se Fernão! Mentes? Minto!

kkkkk amo um deboche medieval 💜

mas as várias cenas inverossímeis do livro Peregrinação, de 1614, eram mais do que mentira: eram uma chance de fazer gente sonhar!!! talvez fosse o realismo fantástico sendo concebido, o embrião da fantasia querendo nascer.

essa mistura de tragicomédia com antipoema fantástico de Fernão cruzou oceanos. veio parar na América Latina, onde descobriu a terra mais fértil e o lugar mais quentinho pra viver toda sua glória. no hemisfério sul da América, o realismo de fantasia de certo encontrou seu lugar.

aqui somos povos feitos de sonhos! 

nós, colonizados pelos conterrâneos de Fernão, temos fendas costuradas pela fé no impossível e nossa vida embalada pela capacidade ilimitada da criação. as artes são nossos deuses e a eles oferecemos toda nossa fantasia.

em nome da nossa latinidade, lusitanidade, e todas as ades que nos trouxeram a essa relação íntima com o delírio, te convido a trazer de volta essa amiga perdida, a imaginação. escrever a ela uma carta de próprio punho endereçada ao exílio, contendo teu endereço, tua caligrafia, tua cor de olhos, o tamanho de tuas feridas rasgadas pelas tarefas. 

pra que ela te localize… pra que ela te enlouqueça de novo. pra que possas, enfim, sentar pra ler esta minha carta e enxergar as tuas próprias fadas amarelas.

sonhemos!

um beijo fantástico. com amor, amanda 💜

P.S.

✏️ sonhar também requer prática; o melhor jeito de começar é consumindo bastante literatura fantástica. te sugiro o livro Antologia da Literatura Fantástica, reunida por Bioy Casares, Borges e Silvina Ocampo. são contos dos maiores contistas do realismo fantástico do mundo todo pra gente fazer uma verdadeira viagem a caravela para o mundo do impossível.

“Ele disse que o reconhecimento não lhe importava um sou. Compartilhei sua opinião de que o próprio ato de criar é a recompensa do poeta.”

✏️ não vou perder a chance de indicar um dos livros favoritos da minha vida. Cem Anos de Solidão, do Gabo, é um clássico indiscutível de realismo fantástico, esse gênero que embora não tenha nascido na América Latina, foi apropriado e lindamente desenvolvido por aqui. se tornou uma marca das nossas artes. nota mental: quero reler Cem Anos em 2022!

🎬 há pouco tive uma surpresa de série daquelas em que soltamos um “ah! como eu não conhecia isso meudeus!”. Dollface é aparentemente uma série sobre a vida comum: garota termina namoro longo, precisa lidar com a perda e se redescobrir como indivíduo. mas no caminho ela solta a imaginação e enxerga as situações com muito surrealismo e fantasia. o resultado é louco, haha, uma série mega divertida e original. INCRÍVEL! tem no Star+.

💡dica de perfil pra quem gosta de cartas! esse formato amor deu vida ao projeto Cartas da Pandemia lá no início da covid, quando o criador Felipe Lenhart resolveu colocar no mundo suas palavras de angústia, medo e amor. apesar de sempre endereçada a uma pessoa próxima a ele, todas as cartas são de destinatário universal: parecem ter sido escritas pra gente 💜. é um trabalho lindo e que ajudou muitas pessoas a se sentirem menos sós no isolamento. pega uma amostra do que ele posta por lá:

🌼 lembrando que eu amo trocar essas cartas contigo. se quiser, pode me escrever. e-mail, comentário ou até a velha e boa caixa postal:

CEP 05435-020. Rua Rodesia, 121. apto 41. Bairro Sumarezinho, São Paulo - SP :)

verso

hoje trago um poema imaginado para dois personagens que vejo passar tododia em frente à minha porta. uma cena viva - ainda mais viva quando fermento em versos. se quiser, dá o play no áudio e lê junto comigo ☺️

.

ritmo

o cachorro não vai na frente, mas ao lado

não quer apressar a vida

que já nasce curta

como suas patas de basset

como seus pelos brancos

como os cabelos tão mais brancos da senhora ao lado

curta como o passo é curto entre os dois

curta como a conversa com o porteiro

bom dia, como vai a família

não sei, diria ela se fosse honesta

mas "bem-obrigada", é tal a resposta

a quem pergunta sem querer

.

pipoca não entende de conversas curtas 

mas sabe imenso de corridas breves

o Tempo dele e da senhora ao lado é o mesmo

o Tempo é um bicho estranho e frágil

de se fuçar e fazer sumir

basta chegar perto, ouvir seu zunido, esmagar com a pata dianteira

e, pronto, aí está o

Tempo caído morto

grotesco exemplar das espécies invisíveis

nascidas pra nos absurdar de tão ligeiras

pipoca não o esmaga, mas também não o perde de vista

é preciso andar devagar com tais passinhos de cão

.

uma brisa se apresenta aos brancos

pelos e cabelos

friagem que os jornais já avisavam para esta tarde

a senhora ao lado viu que era hora,

pipoca, vamos dobrar, chega de cheirar esse bicho esquisito

você capaz de adoecer comendo os outros, meu querido

a caminhada já tinha dado sua cota de acontecer

o ar gelado era como a última bolinha de ração que sobra no prato

aquela que é triste, aquela que é fim

a pequena fração de comida diz a verdade, afinal

que é fado de qualquer cão se conformar com pratos vazios

.

no mesmo passo, os dois passam a porta

o passeio chegou ao fim.



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