acho que eu acordei
era 5 horas da manhã
tomei uma sopa de macarrão
já no caminho
junto com trabalhadores indo
na direção oposta
eu pra margem, eles pra dentro
adoro que o chá é sempre grátis
nem sei como achei a estrada
apontaram a direção
Não tem como errar
e se errar tudo bem
aqui vou eu na bicicleta alugada
sem marcha e nem precisa
freios nas duas rodas
pneus calibrados
corpo alongado
mentira, alonguei nada
são quatro
as antigas capitais do norte do Mianmar
Mandalay é a maior e mais poderosa
aí tem
Amarapura
onde fica a ponte, o mosteiro e a universidade
Sagaing
onde me alimentaram muito bem
Inn Wa
onde as crianças são poliglotas
caminho semi-agradável
estrada secundária
mão dupla uma pista pra cada lado
muitas barracas vendendo gasolina
em garrafas pet e galões de 5 litros
uma faísca e essas crianças todas voam
aceno pra elas
acenam de volta sorridentes
Mingalabar! oi! oi!
o caminho inteiro
raro uma ocidental de bicicleta aqui
especialmente a essa hora
sou atração turística
além do mais, não é privilégio meu
todos se cumprimentam
a cordialidade vale muito
à minha esquerda
a cidade vai dando lugar ao mato
é o lago Taungthaman
meu primeiro destino
pego uma estrada de terra
entre o lago
e uma construção grande
um mosteiro
vejo o muro alto à direita
o lago plácido e amplo à esquerda
a estrada à minha frente
envolvidos na neblina matinal
deve ser 6 e tanto da manhã
a hora branca da noite
dá lugar ao laranja e ao amarelo
adiante aparece a ponte
U-bein
a maior ponte de madeira do mundo
não tem corrimão nem parapeito
pilares espetam o fundo do lago
e sustentam as ripas
que vão serpenteando uma atrás da outra
até a ilha no meio
ou será península?
acho que é ilha
distraída
vou afundando na lama
da estrada úmida
até não conseguir mais pedalar
desço para não cair
e agora eu também estou
atolada
tento guiar a bicicleta adiante
tento, disse
vem vindo um monge
não dá pra saber se é moço ou velho
todos de cabeça raspada e túnica bonina
me viu do mosteiro e veio
Can I help?
a lama engole meus chinelos
ele vem pela lateral
onde a terra não está tão úmida
com habilidade ergue a bicicleta
monge moço
Come on
e entramos no mosteiro
por uma porta miúda
a porta
por onde monges crianças
saem para nadar no lago
à tarde
depois da aula
e antes da meditação do lusco-fusco
uma hora bem quente
e sem afazeres
agora a meditação da alvorada
acabou de acabar
e os monges vivem suas vidas simples
e bem nutridas
dentro do muro, vários edifícios, alojamentos, cozinha, despensa, lavanderia, tinturaria, ateliê de costura, biblioteca, salas de aula, salões de reunião, pátios arborizados, templos e altares salpicados aqui e ali. uma cidade monástica. por todos os lados, varais com túnicas vermelho escuro secando
eu enlameada até os joelhos
a única mulher
Xi Zaguen me leva até a bica
deve haver muitas bicas
monges jovens tomam banho de cuia
raspam as cabeças conversando distraídos
chego e se calam
o herói explica em birmanês
e me olham com aquela cara de
pobre branca incauta
ajudam a limpar a bicicleta
muito amáveis
e eu também
me livro da lama excessiva nos pés
tornozelos, braços e antebraços
bebo muita água
e Buda me ajude se não for limpa
molho a cabeça
porque já estou pedalando há uns bons quilômetros
sabe lá quando vou poder fazer isso de novo
agora chega de privilégio não posso ficar aqui
Xi Salvador Zaguen me conduz até a outra estrada
a que eu devia ter pegado
de asfalto ruim mas asfalto
e diz sorrindo
I think you should try meditation
it makes you happy and healthy
agradeço o conselho
chezutinbadê
com certeza tô falando errado
chezutinbadê thank you
subo na bicicleta e parto
renascida
atravesso a U-bein empurrando a bici
a ponte é estreita e a queda é alta
o lago não está profundo
abril é estação da seca
já sem névoa, vejo as cores
azul do lago refletindo o céu
os diversos verdes da vegetação
o preto da ponte útil há incontáveis anos
atrás e à frente
os coloridos das roupas das pessoas
os rostos das mulheres e crianças pintados de thanaka
a lama de pó de árvore que refresca e protege do sol
o destino da ponte é a ilha
onde fica uma universidade de artes e ciências
só vi crianças correndo
era cedo pela manhã
e não estou com paciência pra esperar
na volta outro monge puxa papo
é mais velho e se chama Pa Outa
come uma banana e depois um punhado de arroz
estendeu a mão pra me cumprimentar
e confusa cumprimentei
mas não devia, devia?
monges teoricamente
não podem tocar em mulheres
e só comem uma vez por dia
será?
penso
deve ser um espião disfarçado de monge
tiramos uma selfie
sigo com cuidado
a ponte está ficando cheia
com o despertar de Amarapura
e a chegada dos primeiros turistas
segundos, a primeira fui eu
pedalo em frente
até Inn Wa
passo a entrada
e entro em Sagaing
deve ser porque estou esfomeada
procuro um restaurante
entro num lugar que
bem que poderia ser um restaurante
Food?
a mulher atrás do balcão aponta
para o galpão do outro lado da rua
várias mesas postas com pratos vazios
estavam me esperando?
sento em frente a um deles e me trazem arroz
de um dos panelões
devoro enquanto várias mulheres chegam
elas se conhecem
me cumprimentam
sentam-se comigo
ou eu que sentei na mesa delas
compartilhamos a refeição
de vegetais, arroz, acho que tinha carne
na verdade não me lembro
quando acabei
me indicaram outra mesa
a de sobremesas: frutas, bolos e sorvete
sorvete!
me esbaldo até o limite da falta de educação
How much?
pergunto pra quem parece coordenar o atendimento
Nothing Nothing
insisto
No, no, gift for you
chezutinbadê thank you
e assim
amavelmente
volto pra estrada
encontro o caminho pra Inn Wa
as crianças que esperam os turistas
que vão atravessar o rio
falam o básico em quatro idiomas
além do próprio birmanês
(qual dialeto não sei)
inglês, espanhol, francês e alemão
é bom pros negócios
o monastério de Inn Wa é todo de madeira
de teca como a ponte U-Bein
muitos detalhes entalhados etc
o que mais gostei foi ver
vários pares de crianças e mestres
estudando sentados no chão do monastério
com caderno e caneta
ou só no gógó e memória
eu, eu já estou cansada
quero e preciso voltar pra Mandalay
o Lonely Planet fala que não tem carro em Inn Wa
e que todo mundo anda de charrete
mentira
isso é só na zona turística
voltando, faço a curva no lugar errado
e vou parar na cidade mesmo
quase uma Mandalay de tanto fluxo
entre motos e caminhonetes
vou parar na rodovia
epa epa
aqui não é meu lugar
sinto o perigo
pedalo no acostamento
até a entrada pra estrada secundária
por onde vim
pedalo constantemente
cansada
mas já estou chegando
um motorista de caminhonete pede
1000 kyat pra me levar de volta
bicicleta e tudo
não, acho caro
caro? sério?
sigo.
pedalzinho de leve
quarenta quilômetros
talvez mais
em 12 horas
e meu orgulho intacto
volto pra Mandalay
e ainda é dia
há tempo pra devolver a bicicleta
lavar as mãos, os pés e o rosto
tomar dois sorvetes
e pegar um trishaw
que é aquela bicicleta com um carrinho do lado
no caso comigo e a mochila do lado
sobre uma terceira roda
chego à rodoviária bem na hora
6 e meia
hora do meu ônibus pra Pakokku
me encaixo entre
sacos de arroz
e gente sentada até no corredor
um dvd dos Moustache Brothers
faz piada no volume máximo
parece que eles são muito famosos
eu uso tampões de ouvido
eu nem percebo nada
eu durmo
beijinhos,
Lívia