A Grande Desilusão Amorosa de um pé tamanho 46 atingiu minha bunda em cheio. Doeu, mas foi assim que começou minha volta ao mundo. Nem foi tão ruim.
Era 2012, eu tinha 24 anos e a patada dada pelo holandês explodiu meus planos de me demitir do emprego em São Paulo e me mudar pra Amsterdã, onde iria viver um amor verdadeiro, fazer mestrado e pedalar pela cidade com flores na cestinha da bicicleta. Aí foram dois meses de choro pelos cantos, rímel escorrendo pelo rosto, Maysa cantando ao fundo. Até que Bia mandou a real pras minhas olheiras:
“Amiga, já deu de sofrer, né? Você não ia estudar em Amsterdã? Vai fazer esse mestrado em outro país ou, sei lá, pega o dinheiro e faz uma volta ao mundo.”
“Volta ao mundo?!”, as formigas dos meus pés se agitaram.
Eu já tinha feito um mochilão pela América do Sul e amado cada segundo, inclusive as longas 24h da viagem de ônibus de Cusco a Lima, eu de piriri num ônibus sem banheiro (sabe, um perrenguezinho inofensivo vira história boa de contar depois).
Desse dia pra frente, sacudi a tristeza e a ideia da circum-viagem virou plano. Fiz as contas e vi que dava pra fazer se eu fosse bem econômica.
Dar uma volta ao mundo é simples: é só ir indo, indo, indo até voltar.
Hoje em dia é moleza, difícil era na época do Vasco da Gama, o povo acreditava até que podia cair da borda do planeta (sem comentários sobre quem ainda tá nessa).
Pra mim, bastou comprar uma passagem saindo de São Paulo em direção ao sol poente. Uma passagem de volta ao mundo, que você escolhe os aeroportos e pode mudar as datas dos voos quando quiser. Pra viajar bem livre. Reservei o primeiro hostel, em Hong Kong.
O resto descobriria no caminho.
E viva o dólar barato, que com os R$ 30.000 que juntei em dois anos ralando o cérebro financiei toda a aventura: das passagens de avião aos passes de metrô, ônibus, balão e caminhonete.
Sou cria da Universidade Federal com Lula e Dilma, sem greves e a economia estava tão aquecida que a ideia millennial de largar tudo pra ir viajar e depois ver no que dá era uma loucura possível - uma loucura possível que eu queria (precisava) viver.
Tudo começou com um pé na bunda e quando estive na Holanda pude inclusive agradecer o boy que me chutou - mas isso foi lá na frente, estou me adiantando na história.
Parti para o oeste no dia 18 de janeiro e pousei de novo em Guarulhos em 16 de outubro. Foram 39 semanas de gestação de mim mesma, navegando à toa pelo mundo: entregue às correntes do acaso, sorte, destino, fluxo universal, ou como quiser chamar.
Esta é a minha história de renascimento, crescimento, investigação de mim e do planeta, uma história com mil histórias dentro, de aventura, amizade, paixão, sexo (vou avisar antes, tá mãe?), perrengue, assédio, treta, resignação, persistência, confiança, coragem, medo e desejo. Todas as histórias contêm desejo, desejo insaciável pela vida e por conhecimento empírico.
Na época, eu mantive um blog eusouatoa.com (que continua ativo, tá tudo lá), o instagram @eusouatoa e escrevi matérias para sites e revistas contando algunas cositas. Mas, se eu escrevi muito, ainda foi pouco comparado a tudo que vivi. Certas coisas foram tão impactantes e outras tão íntimas que não cabiam nesses espaços, nem eu estava pronta pra contar.
Agora, 10 anos depois, eu não sou só jornalista e blogueira: sou também poeta, podcaster, performer, fotógrafa, faço umas colagens e até arrisco uns desenhos ruins... e vou contar o que vivi em crônica, conto, poema, carta, sons, imagens e o que + eu inventar, ficando pronta pra tocar nos temas mais profundos ao longo do processo.
Este é um convite para que você embarque comigo nesta viagem que se desloca pela Ásia, Europa, um pedacinho da África e que também volta no tempo: em 2012, não existia pandemia, fake news, tiktok, o dólar custava R$1,80 e eu conseguia dormir em qualquer lugar, inclusive em cima da minha mochila em uma estação de trem movimentada.
Neste 2022, 10 anos depois, semana a semana, vou contar as histórias inéditas (e algumas repetidas com outra abordagem), com o máximo de honestidade possível. Comigo mesma e com você que me lê.
Para viabilizar essa jornada, criei uma campanha de financiamento por assinatura. Apoiadores recebem os escritos-sentimentos completos saídos quentes da mente, rascunhos ainda em processo de edição. Assinantes pelo Substack (grátis!) recebem alguns capítulos completos, outros só um trechinho.
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Um beijinho,Lívia