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Description

. uma busca .

de teus movimentos nada afirmo, pois deles nada sei. apenas pressinto um gigantesco giro. sou cego aos teus desígnios - deles nunca pude entrever a menor parte. do teu rosto antigo só me restou uma sombra suja, rascunhada, que guardo dentro de uma gaveta de papéis. o teu nome não me foi revelado. o teu corpo é arcaico, eu sei, mas nunca pude tocá-lo. ainda que eu deseje com força, ele não se mostra. ouço notícias do teu esplendor. dizem que perambulas por aí seguido por um séquito. dizem que habitas um templo e que tens um oponente terrífico. mas nada sei dos teus roteiros, não posso seguir-te em teus périplos. e tampouco tenho notícias do teu paradeiro. sei apenas, por advinhação, que é imenso o teu reinado e que os teus braços são do tamanho de cordilheiras e que com apenas um passo cruzas um oceano e que os teus olhos emitem uma luz tão forte que fulmina qualquer um que se atrever a te olhar de frente. e estás aqui, tão perto, mas me foges quando estendo a mão. nada sei dos teus trabalhos, nada sei dos teus ritmos. eu não concordo com teus mandamentos. mas desejo com ardor a tua vinda. disseram certa vez que estavas morto. muitos creram, muitos confirmaram. mas sei que tens o curioso dom de sobreviver à tua própria morte. e sei que tens um poder insidioso capaz de se infiltrar no coração dos homens. és sorrateiro, cínico e dissimulado. estás sempre onde não te suspeitam, mostras sempre o teu poder onde ele não é necessário. e estás aqui, ao meu lado, como uma chama invisível ou mesmo dentro de minha carne, como um habitante intruso. e me consomes por dentro, escorragas para o meu interior quando estou distraído, operas em meu peito arranjos que desconheço, trabalhas em mim na surdina, como um secreto operário. és refulgente, mas não consigo ver a tua luz. és imenso, mas meus olhos são pequenos demais para abarcar-te. és violento e forte - e eu sou uma criatura tão miúda. sou vacilante enquanto és firme; sou temeroso enquanto és pura coragem. eu tento agarrar teu corpo em sonhos, teu corpo que é feito de magma e rocha vulcânica, teu corpo que é misturado com pedras, que é um corpo de galhos, de húmus, em outras horas um corpo de titânio. eu tento acompanhar um vôo teu mas tuas alturas são vertiginosas. eu tento navegar contigo em mares, mas não há bússola que dê conta dos teus itinerários. eu tento arrancar de ti uma palavra mas tua língua é feita de grunhidos, de trinados, de trovões. sei que estás aqui, escuto uns ecos, recebo presságios. mas nunca te dignaste a aparecer em minha casa, mesmo sabendo do meu endereço completo. e nunca me enviaste uma carta, nem mesmo um bilhete me escreveste, nada. eu não desisto fácil e tento atrair a tua presença com mantras, ladainhas e cantilenas. e procuro produzir em mim um silêncio tão fundo que de dentro dele possa emergir a tua voz. e respiro de forma ritmada e lenta para que todo o meu corpo fique iluminado. mas não vens, és teimoso, és árduo, não vens enquanto eu te procuro e só te mostras quando esqueço de te procurar.

ygor raduy em a maçã no escuro . 2006 .