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(...)
eu agora mergulho e ascendo como um copo.
trago para cima essa imagem de água interna.
- caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
tudo morre o seu nome noutro nome.

poema não saindo do poder da loucura.
poema com base inconcreta de criação.
ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
porque eu sou uma vida
com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
com alguma ironia furibunda.

sou uma devastação inteligente.
com malmequeres fabulosos.
ouro por cima.
a madrugada ou a noite triste
tocadas em trompete.
sou alguma coisa audível,
sensível.
um movimento.
cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
ou flores bebendo a jarra.
o silêncio estrutural das flores.
e a mesa por baixo.
a sonhar.

herberto helder em "poemacto" . lisboa, 1961 .

* esta é uma parceria com eugénia lopes, uma poeta portuguesa extemporânea de fernando pessoa que já mudou a minha vida algumas vezes. é uma poeta com quem eu não tenho acordo prévio: às vezes ela traz a música e eu o poema. às vezes, é na base do vice-versa. para nós, pouco importa que eles, os poemas e as canções, não sejam nossos. é assim que os tomamos porque para o risco que nasceram. há muito tempo ela me trouxe esse golpe de faca do herberto helder e o que faço aqui é uma tentativa atrasada de agradecê-la pelo compromisso com o longe e a miragem que está continuamente me inspirando a assumir.