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Durante exatos 7 anos, padeci desse mal e dessa paixão. Foi entre 1995 e 2001. Nessa época eu morava em Casa Caiada, Olinda e estudava no Colégio de Aplicação da UFPE*, em Recife e precisava cruzar as cidades diariamente para freqüentar o colégio. Era um trajeto de quase 19 km para ir e outros 19 km para voltar, na linha de ônibus 920 chamada de “Rio Doce/CDU”, a única que servia para mim.

Aquele ônibus era uma verdadeira praça, uma vitrine do mundo. Tinha de tudo. Passei por dezenas de cenas dignas da literatura universal a bordo desse ônibus. Kafka e suas paranóias, os miseráveis de Victor Hugo, a energia de Rimbaud e a sarjeta de Bukowski, além de outras cenas humorísticas e policiais que talvez sejam contadas um dia.

Era uma realmente viagem estafante, mas fantástica. O Rio Doce tinha algo de barco, algo de balsa: a impressão que dava era de que todo mundo que subia, descia no mesmo lugar: a Cidade Universitária (CDU). Em pouco tempo passei a transitar pelos bairros em que o Rio Doce/CDU passava. Era como caminhar pelas margens de um rio. Várzea, Cidade Universitária, Cordeiro, Engenho do Meio, Madalena e Derby, fui de um a outro quase por contiguidade, nas margens da av. Caxangá, pingando pela porta traseira.

O poema deve ter sido escrito entre 1997 e 2000, não lembro exatamente.