O podcast do Hora do Rock estréia com o especial The Velvet Underground. Uma hora com músicas dos quatro discos da banda, além de muita história.
Há 40 anos, em julho de 66, o Velvet Underground lançou o primeiro single, "All Tomorrow’s Parties". A canção faz parte do disco de estréia da banda, "The Velvet Underground & Nico", que apesar de ter sido gravado em 66, só saiu no ano seguinte por uma série de problemas. Inicialmente, a gravadora MGM teve problemas para conseguir confeccionar a capa que Andy Warhol tinha idealizado (a banana “descascável”).
Quase um ano depois, o "The Velvet Underground & Nico" finalmente saiu, mas não demorou um mês para ser retirado das prateleiras, em função da contracapa que trazia uma imagem da banda tocando em uma apresentação do grupo performático Exploding Plastic Inevitable.
A imagem era um frame de um dos filmes de Andy Warhol, e incluía um dos seus agregados, Eric Emmerson. Ele tinha sido preso por porte de drogas, precisava fazer uma grana e acionou judicialmente a gravadora, acusando a MGM de ter usado a imagem sem a sua permissão. O disco tinha até estreado bem, na posição 171 da Billboard, mas mesmo assim foi recolhido e relançado algum tempo depois, na mesma época que o "Sargent Pepper’s Lonely Hearts", dos Beatles - e ficou difícil para competir.
O mais importante é que o famoso disco da banana permanece até hoje como um dos álbuns de estréia mais marcantes da história da música, e certamente um dos mais influentes do rock. Como disse Brian Eno, e muitas pessoas repetiram depois, não houve muita gente que comprasse o disco quando ele foi lançado, mas quem comprou montou uma banda.
Embora a formação clássica do Velvet seja com Lou Reed, John Cale, Sterling Morrisson e Maureen Tucker, o grupo teve outro baterista, Angus MacLise. Ele foi apresentado por um amigo em comum a John Cale, à época recém chegado do seu lugar de origem, o País de Gales.
Lou Reed, John Cale e MacLise se reuniram em 65 e começaram a tocar algumas composições, como "Heroin", e antes de The Velvet Underground, eles chamaram a banda de Warlocks e Falling Spikes. O nome definitivo foi inspirado em um livro sobre sadomasoquismo escrito por Michael Leigh, que eles acharam na rua Bowery, em Nova Iorque. Não demorou muito para Angus MacLise deixar o grupo e ser substituído ainda em 65 por Maureen, responsável pela bateria tosca e minimalista característica do Velvet Underground.
Durante um tempo, o Velvet teve uma “agregada”. Era Nico, uma modelo e atriz húngara, que viveu na Alemanha e antes de ir parar no Estados Unidos passou um tempo em Londres, onde gravou um single, da música "I’ll Keep It With Mine", de Bob Dylan. Ao chegar em Nova Iorque, acabou se juntando à turma da Factory de Andy Warhol. Foi ele, inclusive (que foi empresário do Velvet nos primeiros anos da banda e bancou a gravação do primeiro disco), que de certa forma impôs a participação dela cantando algumas músicas.
A despeito do ciúme de Lou Reed com as composições dele, as músicas que Nico canta no disco da banana ("All Tomorrow’s Parties", "I’ll Be Your Mirror" e "Femme Fatale") são algumas das melhores do álbum.
Embora o envolvimento de Nico com o Velvet Underground não tenha durado muito tempo, a parceria rendeu alguns frutos. Reza a lenda que Lou Reed e Nico chegaram a ter um caso, e que a inspiração para "I’ll Be Your Mirror" teria vindo de uma ocasião em que Nico disse para Lou: “Oh, Lou, I’ll be your mirror”; e John Cale produziu os melhores discos solo dela, o Desert Shores e o Chelsea Girls, no final dos anos 60 e início dos anos 70.
O segundo disco do Velvet, "White Light, White Heat", foi lançado em 68 e teve produção de
Tom Wilson, e não de Andy Warhol, responsável pelo primeiro. John Cale diz que, enquanto no disco da banana há beleza e gentileza, no "White Light,White Heat" eles fizeram de tudo para passar longe disso. O resultado é bastante barulho e distorção, com letras que falam de alienação e desespero.
Na época do lançamento do "White Light, White Heat", John Cale deixou o grupo, por desavenças pessoais com Lou Reed e desgates internos provocados principalmente pelo grande esforço que a banda fazia, sem retorno imediato algum financeiro ou de popularidade. Quem entrou no lugar dele foi o baixista Doug Yule, que em 70, quando Lou Reed anunciou que ia sair da banda e o Velvet acabou, organizou outra formação e continuou usando o nome.
Um disco chamado "Squeeze" foi creditado ao Velvet Underground em 73, quando foi lançado na Inglaterra, mas nem é reconhecido como um disco do grupo, e felizmente não teve uma distribuição muito boa.
O terceiro disco da banda, o primeiro com Doug Yule no lugar de John Cale, se chama somente Velvet Underground. Na sonoridade, está mais próximo do "Velvet Underground and Nico", mas nas letras a diferença entre os dois trabalhos anteriores é marcante. Lou Reed apresenta letras mais reflexivas, em um discurso de descontentamento emocional que tem um tom diferente. Não por acaso, algumas das músicas se chamam "Jesus", "Begining To See The Light" e "I’m Set Free".
O quarto e último disco oficial do Velvet é o "Loaded", lançado em 70 e considerado um disco “inferior” da banda, com melodias mais óbvias, de fácil assimilação. Para muitos, a tentativa máxima de Lou Reed obter sucesso comercial com a banda. O "Loaded" é o único álbum do Velvet que não saiu pela MGM, mas por um selo da Atlantic Records, o Cotillion. Se na MGM eles tinham liberdade para gravar o que bem entendiam, por outro lado não contavam com a gravadora para promoção e divulgação dos trabalhos. O "Loaded" é o único disco do Velvet que teve tiragens contínuas desde que foi lançado. Fazem parte desse disco algumas pérolas do VU, como "Sweet Jane", "Who Loves The Sun", e "Sweet Nuthin’" (as duas últimas integrantes da trilha sonora de "Alta Fidelidade").
* Apesar de o Velvet ter sido ligado a Andy Warhol, que fez algumas dezenas de filmes, não existe um único registro audiovisual de um show inteiro da banda entre 66 e 70. Alguns documentários sobre Lou Reed ("Rock’n’Roll Heart"), Nico ("Nico Icon") e o próprio Velvet ("The Velvet Underground Under Review") apresentam pequenos trechos de ensaios na Factory e de shows em Max Kansas City’s e Café Bizarres da vida, com o EPI.
Produção, texto e apresentação: Gabriela Almeida