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Minissonhos
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Minissonhos
Minissonhos | Audiobook
Minissonhos é o podcast do livro infantojuvenil Minissonhos (Ed. Urutau, 2022), escrito por Sinuhe LP e ilustrado por Ana Zequin. O projeto foi financiado pelo Programa de Estímulo À Cultura de Bauru (PEC/2022). Elenco Sinuhe LP Marcelino Freire Celeste Antunes Luísa Ramos Renata Alves Paulo Novaes Renato Rapnobre Sol Maurício Pereira Bebé Pacheco Renata Hein Caio Lang André Abujamra Helena Kendall Francisco Okabe LUIZGA Vinicius Zurlo Silveriô Maria Cau Levy Giovana Telles Cida Moreira Julia Iwanaga Rafa Carvalho Olívia Blanc Monaju Juliana Mazza Juliano Dip Cebola Ana Zequin Sophia Chablau Luna Martinelli João Biano Marina Wisnik Paulo Ohana
2024-02-29
48 min
Minissonhos
joão sem braço, com Vinícius Zurlo
No meio da roseira, uma viola chorava bonito, baixinho, mas com maestria. Alguém passava pela praça enquanto a cidade dormia e ouviu a viola chorar. Foi se aproximando da roseira, devagar, no escuro, a viola iluminada. Que viola! Alguém se emocionou. Chegando mais perto, alguém se abaixou para ouvir e viu. E deu dois passos para trás. E não tardou a tremer. E começou a rezar. Alguém viu! Alguém viu! Na roseira, sentado, um João que não tinha os braços, dos dois olhos vermelhos esbugalhados: um olhava para alguém...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
o sonho do engenheiro, com Marina Wisnik
Morreu gritando: o efeito dos raios gama nas margaridas do campo. Médicos e anatomistas frequentavam a sua casa. Queriam estudá-lo, entender o sonho matéria. Mas o que sonhava? Dizia que se um dia contasse, morreria em seguida. Assim a cabeça se deformava, subiam bolotas, mini morros do crânio, o peso do sonho. A cabeça pendia. Sonhar era ocupar mais um espaço da cabeça, apertar o cérebro. Dormia com os dedos em figas para não sonhar. O sonho do engenheiro eram grãozinhos miligrâmicos. O dito sono pesado? Cabeça, alguém esc...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
astros em casa, com Francisco Okabe
Eu não pedi nada. Mas uma encomenda de Tiradentes chegou. Dentro, uma casa de barro em miniatura, com paredes roxas e contorno laranja nas portas e janelas: sempre abertas. Na frente, um detalhe em flor. Por dentro, vazia e sem chão. Sem cheiro. Escrevia uma canção e, quando me faltavam palavras, olhava discreto para a casa no alto, ao lado dos livros na estante. E me inspirava. Isso se repetia. Ao dormir, ouvia baixinho um som conta-gotas que marcava o tempo. Irritava profundamente. Você já deve imaginar que vinha da casa, mas eu não fazia ideia...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
sinuhe hotel, com Helena Kendall
As notícias do interior são quentes. Aflitos estamos com desdobramentos de um ineditismo. Há um mês, um imenso matagal amanheceu uma construção de pé. Achamos esquisito e, no dia seguinte, a construção ganhou um andar. Como acontecia de noite, plantamos dois marmanjos para fiscalizar. Noutro dia, dois andares, fachada azul-turquesa e nada. Nenhum responsável. Gostamos do mistério e visitamos o prédio diariamente. Um mês sem novidades, ontem despertou com a placa “Sinuhe Hotel”. Hotel para vilarejo? O que é Sinuhe? Queríamos descobrir. Lemos a biblioteca. Nada de Sinuhe. Nenhuma resposta. Revoltados, apedrej...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
vocabulose, com André Abujamra
O primeiro sintoma foi no jantar. Mamãe, por obséquio, quais acepipes estão no cardápio? Os pais se entreolharam. Esse menino está vendo muita televisão. Na escola, assustava os amiguinhos. Profa., pularemos os prolegômenos da aula? Ninguém entende o que ele fala, parece outra língua, dizia a professora, que ficava de cabelos brancos. A mãe, preocupada, passou a observar para descobrir de onde vinham aquelas palavras. Mamãe, estou incólume, indene, invulnerado. A mãe achou uma afronta. Já para o seu quarto. Ok, vou me refugiar na minha guarida. Sem melhoras...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
futureza: verde repente, com Caio Lang
Quem cuida de um vaso: cuida do futuro. Cuidado: futuro. No vaso alguém planta: o futuro debaixo da terra. Fica o futuro embrulhado: em diversas vontades e intenções. Fica guardadinho: faz de conta que ninguém está vendo. Se olha para o vaso: olha para o futuro. Mesmo no presente: o futuro está na sua frente. Quanta responsabilidade é cuidar do futuro: avançar ou esperar? Ora alguém rega: para aguardar. Ora alguém ilumina: para crescer. Atividade laboriosa: atividade paciente. Querer ver: querer verde. É natural vir de repente: é o ciclo da vida. Quem ficar para ver verá o verde...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
a danceteria, com Celeste Antunes
Foi em Birigui que chegamos a um bambuzal suntuoso, cujas folhas balançavam em um ritmo dançante, ouvindo uma canção pop dos anos oitentas que saía do falante de algum buraco da terra. Um som de discoteca que só as folhas podiam escutar. Escutar e bailar. E até coreografavam! Ora subindo, ora descendo… Nesse embalo, fomos nos aproximando da pista para participar da brincadeira. Quando percebemos uma família de sacizinhos pés de valsa completamente pendurada no bambuzal. Eles tinham o tamanho de um dedo e dançavam as folhas como marionetes. Quando nos viram, sorriram! E...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
são ão, com Renata Hein
Todo mundo tem segredo, mas o meu me causa medo. Tamanho medo nas horas eu passo, ando com dicionário debaixo do braço. Me espanta o que não conheço: com essas palavras, eu adoeço. De ouvir uma frase que não faça sentido, um arrepio me sobe do pé ao umbigo. É o eco do desconhecido verbalizado, quando não entendo o que foi falado. Qual o significado? Olho para a definição. Assim fico mais sossegado. E rezo para São Ão, o padroeiro das palavras desconhecidas, que mesmo desprezadas, para ele, são amigas. A boca...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
o mundo debaixo das unhas, com Bebé Pacheco
Mãe, abençoa a mão da menina, mãe, abençoa essa mão. Essa mão tem sido tão boa pra nós, mãe, essa mão dá a nossa fartura. Essa mão dá de comer, dá de beber. Porque o povo quer retribuir, quer ver a menina feliz. A mão da menina aponta a cura. Enfermos, acidentados e tristes formam fila na nossa calçada, chegam descrentes. Onde a mão encosta, a mão salva. A mão está salvando famílias. Como pode tanta sabedoria na mão da menina, mãe? Que mão sá...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
cinquenta balõezinhos, com Maurício Pereira
Cinquenta balõezinhos ficavam sob uma redoma de vidro para não fugirem da prateleira numa feira do rolo. Comprei a coleção com advertência do vendedor: “São apaixonados pelo céu. Cuidado, mantenha-os sempre juntos e protegidos”. Assim foram despejados na minha mão, que rapidamente fechei. Com a outra, paguei o vendedor. E não abri a mão por meses, tive muito medo. Banhos estranhos. Dormir? Com uma sacola amarrada no pulso. A vida com uma mão. Amigos ficaram preocupados. Foi quando descobri um curso por correspondência sobre balões. Centenas de cartas. Não conse...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
bauru..., com Sol
Minha vó sempre lutou com as letras e nunca entendi muito bem. Quando pousávamos em Bauru… — a cidade dela —, na hora de dormir, ela dizia que, antes do sono, vinha a luta. Mas por que a luta? Vovó era estudiosa das letras. Ela respondia que, antes de utilizá-las, era preciso essencialmente domá-las. Colocava um pijama de seda, apagava as luzes, marcava o tempo no relógio da cabeceira. O quarto era o ringue. Após árduas batalhas e noites de sono, a vó acordava com uma brincadeira de letra na cabeça. Uma palavra nova, uma interpretação qu...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
um avião passou escrito saudades, com Renato Rapnobre
Aqui nesta pedra, quero registrar a minha história. Resumir antes de sumir. Quero reivindicar em algumas linhas tudo o que pude viver e principalmente o que não vivi. Assim, poderão me distinguir dos demais. A pedra será o caminho, o caminho que percorri ao longo dos anos desde o meu nascimento. Quando deixo a minha história na pedra, finalmente paro para observá-la. Porque enquanto vivo e solto, nunca parei para me ver, apenas segui caminhando e caminhando. Com a história na pedra, me pedrifico e fixo viverei até a eternidade. Quando o mar finalmen...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
dando bandeira, com Paulo Novaes
Mãe faz feijão no morro e a tarde cai mais cedo. O menino brinca no quintal. Quintal pequeno, quintal do mundo, quintal. Menino brinca, mãe ferve, mundo gira. Quintal é o meu mundo, menino pensa. Um feijão no morro. Que tal desbravá-lo? E toma as rédeas do mundo com dois braços magrinhos e abraça o quintal, agora é Natal. Achou os presentes do Papai Noel? Eu pensei que todo mundo morava debaixo dos canteiros de flores coloridas onde vez ou outra visita uma mamangaba. Mãe deixa eu andar de patinete. Feijão na panela. M...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
borracha, com Renata Alves
Que vergonha, pensou a borracha de dez centímetros enquanto era embrulhada em um celofane verde para dentro de uma caixinha. Presentear um amigo? Quem dá uma borracha de presente? Ela não concordava. Só pode ser mentira, tem ódio desse amigo? Amigo do trabalho ainda? Inconformava-se, caindo de um lado para o outro na caixinha que balançava. Que sentido faz isso… tudo tem limite. No banco de trás, a borracha em polvorosa e o carro em movimento. Não entendeu nada. Uma borracha nunca é uma simples borracha. Borracha é mensagem. Quem receber vai pensar coisa ruim, sei lá… um desej...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
pombos no cinema, com Luísa Ramos
Duas pessoas marcam um encontro. Não se conhecem. Veem-se pela primeira vez. Tudo bem, e você? Entram numa sala escura. Pula pipoca, pouca palavra. O filme começa. Duas histórias correm ao mesmo tempo: o filme e a fortuna do primeiro beijo. O silêncio reina, mas é possível ouvir baixinho o que cada um guarda. Em uma poltrona: será que o beijo vem? Na outra: já vi esse filme. Na tela do cinema, uma perseguição: um aventureiro percorre um túnel segurando um chicote e foge de uma pedra gigante que tenta esmagá-lo a qualquer cust...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
o professor e o mar, com Marcelino Freire
Não se deve acordar um sonâmbulo: ele pode assustar e quebrar o pescoço. No primeiro dia da abertura total da cidade curada, o prof. de português acordou cedo e se rumou à escola. Adormecido de uma véspera áspera, errou o caminho e cruzou a praia. Um giz na mão, olhou para o mar e lembrou a sua primeira aula da vida. Uma placa fincada na areia dizia “Perigo, prof”. Foram tantas incertezas. Pela primeira vez, ficou sem as palavras e se viu ouvinte. Mudo e úmido. Sozinhos. O mar verde-lousa não parou. Imóvel como a plac...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
formigas no computador, com Giovana Telles
Café em tudo. Meu pai tinha derramado no computador, as letras boiando, a tela com pingos marrons. Na cozinha, bateu um super-remelexo: leite, rosquinhas e achocolatado. Pronto para beber, voltou ao café e já não estava sozinho. Muito feliz, gargalhava balançando o mouse e me chamou. Apontava e ria: enfileiradas e organizadas, formigas nanicas marchavam sobre a tela do computador. Meu pai adorando. Elas estão desbravando léguas, disse. Reparei que ele dirigia a cena de um espetáculo, conforme as formigas andavam, ele trocava o cenário na tela, ora escalavam a pirâmide de Quéops, or...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
a guerra babélica, com LUIZGA
Deus estava muito triste. Digamos: decepcionado. O mundo coberto de guerras o chateava. Ouviu um grito e uma ideia. Chamou todos os arcanjos com suas trombetas e disse: a partir de hoje, se alguém morrer de morte matada, será ouvido por todos os cantos da Terra um berro ensurdecedor. Dito e feito. No primeiro dia, ninguém entendeu nada, mas os jornais do mundo inteiro noticiavam. Era impossível viver com o zunido constante. Não sabiam a origem, mas, em uma semana, entenderam que a morte gerava som, e a violência era um tipo de barulho. O mund...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
problemas, com Júlia Iwanaga
Um livro pode ser confidente. Ou um simples porta-treco. Às vezes: um labirinto. Lolô guarda objetos nos livros. Papéis, notas, documentos, receitas, dinheiro. Enfileira todos na estante, e uma eventual leitura traz surpresas. Lolô lembra a primeira vez que foi ao cinema: guardou o bilhete em um romance policial. Qual era o filme? Este era o livro. Eu tenho certeza. Lolô folheia página por página e nada. Investiga minuciosamente capa e contracapa. Orelhas. Lolô para. Lolô pensa. Se as páginas são paredes, rasga uma a uma e prega ao seu redor com fitas. Por fim, sobra...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
universo para lê-lo, com Maria Cau Levy
Para desligar o mundo. Para dizer o seu nome e a cidade de onde está falando. Para amar por uma semana e meia. Para navegar por terras estranhas. Para dar um passo maior que a perna. Para defenestrar. Para fazer dinheiro. Para dançar à meia-noite. Para apoiar uma ideia. Para pregar peças. Para imprimir um retrato. Para falar ou se calar para sempre. Para emprestar ou perder. Para tirar férias de si. Para desfazer as teias. Para acompanhar o café. Para esconder o rosto. Para virar filme. Para cair no inverno. Para ligar retas paralelas. Para mastigar e engo...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
o último adeus à plíngua, com Paulo Ohana
Como uma língua morre? Atrás dela, estavam duas décadas: desde a última vez que se viram, quatro adolescentes juraram um pacto: pa partir pde phoje, pfalaremos pcom pa plíngua pdo P por papenas pvinte panos. O P foi linguagem de todo dia: hábito e tradição. Não se vigiavam: a amizade esbanjava confiança. Cada P anterior a toda palavra pronunciada lembrava o amor entre eles. Diariamente. O amor entre as palavras, o amor em pronúncia. Em vinte anos, uma língua respira e uma árvore cresce. E tudo que o P antecedeu, cr...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
casa de badalação e tédio, com Luna Martinelli
Não são dias, não são noites, apenas são. O que são? Ainda não sei, ainda não pensei. Eu apenas olho para a casa e me sinto em casa. A casa engraçada onde o tempo não passa. O tempo transforma. E o que aparece, parece ser o que sempre foi, mesmo sem nunca ter sido. O que faz sentido faz-se sentindo. Olho para mim e vejo o tempo vivo. Ao vivo. Mas não me ocupo de onde venho ou para onde vou. Estou chegando ao mesmo lugar. Porque aqui tudo tem pe...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
o supermã, com Sophia Chablau
Pronto voei pelas ruas grudando nas portas. Bastavam dezoito anos sem saber quem era meu pai. Queria indagar a todos, livrar-me da chaga que me consumia a contar quando nasci: o vírus do não trancava janelas e histórias… a minha história. O não dentro das casas. Você sabe quem é meu pai? Não. Todo o mundo se despedia de mim. Na cheia do rio, descobri meu pai lenda, meu pai fantasma. Você lembra muito seu pai, disseram. Desta bênção, soube do supermã: salvador de uma panapaná que durava meses, colorindo telhados, camas e portas. Meu pa...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
amor ao meio, com Ana Zequin
Fez-se silêncio grande. Até a cidade barulhenta respeitava este momento. O cuco dava sete horas cravadas. E pela porta da sala entrava Clara, depois de um dia de trabalho no consultório. Ela deslizava pela casa. A mala na mesa, as chaves no gancho, sapatos no canto. Tudo em seu devido lugar. Calmo e suspenso. Uma almofada para a outra: é hoje! Clara afastou as almofadas e sentou. Abriu a sacola e sacou uma fita. Inclinou-se para encaixá-la no videocassete. Saboreando as mínimas partes do percurso, pegou o controle cuidadosamente. Recuou-se ao encosto do sofá. Apoiou as pernas...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
mibalas, mibalas, com Cebola
Mibalas, mibalas. Eram moda na rua as balas da venda do seu Juca. Ele tinha um baleiro de cinco bocas, coisa fina que girava quando a gente cantava. E foi mania entre os moleques do bairro brincar de dedos leves no baleiro. O povo inventa línguas e balas, o truque era manjado. Mas quem está chupando bala não fala. Grande torcedor do Noroeste, seu Juca largava o balcão para ouvir a partida no quarto. Coisa de superstição. De tocaia, entrávamos em ação, quem tascava a mão dentro do baleiro gritava: “Seu Juca, peguei cinco...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
passagens, com Juliano Dip
João juntava dinheiro para cuidar da saúde, já há muito debilitada. Dias e dias na cabine, onde por suas mãos passavam notas que acariciava, mas não possuía. Por fora, o trânsito vivo. João enlatado no meio: entre sonhos, saudades, oportunidades e desfechos. Já Tom Mix vinha de uma ervilha para a capital: em suas mãos, o volante guiava o capítulo seguinte. Tom parou o carro de tantos cavalos, a cancela abaixada. Estendeu o braço com vinte reais. João pegou e levantou a cancela. Entreolharam-se. E quando realmente se viram, entende...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
nananinanão, com Juliana Mazza
Ana tem madeixas brilhantes por onde atravessa o vento: o vento leva e traz ao litoral as chuvas: as chuvas molham tia Sônia e o teto do seu Pálio vermelho: o seu Pálio vermelho, ao ver Pálios de outras cores na rua, acredita em Deus: Deus está entre nós e acompanha Euclides apagando as luzes e gritando nos corredores do colégio com muito medo: o medo se despede das crianças aos doze, mas está morando na casa ao lado: a casa ao lado é feita de madeira e sua campainha às vezes dá choque: o ch...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
sandra, com Monaju
Uma intriga de vizinhos nomeou o bairro Barabaixo. Em um corredor, entre o mercadinho e o boteco, Sandra vivia com plantas cativas. Dracenas, damas-da-noite, rendas-portuguesas, samambaias. Antes de uma casa, um grande jardim. Sandra não morava, escondia-se entre os ramos. Os poucos moradores daquela porção de terra repudiavam. Principalmente no boteco: um cortiço de folhas! Semente do diabo, só junta mosquito! Falavam que Sandra tinha barulho de carroça na cabeça e gozavam das garrafadas que preparava. A mata do corredor já alcançava os telhados quando notaram o sumiço de Sandra. Organizaram-se e, de mansinh...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
memória para os dedos, com Olívia Blanc
O intervalo do circo tem pipoca, doce e fotografia. O flash pegou mamãe e Lindonéia de surpresa: no fim do espetáculo, vocês ganharão um monóculo. Levaram o amarelinho para casa e Lindonéia não parava de botar o olho. Dentro, uma fotinha dela com mamãe sorrindo na arquibancada (mamãe piscou). Anos foram até a noite que rolava na cama e não conseguia dormir. Nomeara todos os carneirinhos. Debaixo do travesseiro, Lindonéia escutava ondas tímidas de um marzinho. Lá estava o monóculo. Ela chacoalhou: tinha água dentro. Por fim botou o o...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
o saudade, com Rafa Carvalho
Ô de casa! Tô aqui fora, gritava da calçada o Saudade. Batia palmas, chamava o cachorrinho, assobiava. Algumas pessoas do bairro passavam e assistiam à cena. Cochichavam. Carros cruzavam aquele momento. Eu quero entrar, ninguém atende, mas que diabo, a casa vazia ao meio-dia de uma terça-feira. O Saudade também interfonou ao vizinho, sem resposta. Cansado das tentativas, sentou no meio-fio, abriu sua maleta de bugigangas e tirou um jornal de 1996. O Saudade se entretinha com as notícias quando uma moto atravessou uma poça na sua frente: tudo molhou, ele e o jornal. Tudo bem, já decore...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
uns choram, outros vendem lenços, com Cida Moreira
Onde se lê lãs, flanelas e cobertores também é a casa do coveiro do Cemitério da Saudade. São duas décadas vividas dentro dos campos santos, seu Adamastor é morador. E gosta. Pegou gosto com o pesar dos anos. Um dia descobriu a invasão. O cemitério é alvo popular durante o dia. À noite? Há mais vivos que mortos. Mesmo com expediente encerrado, muitos pulam as ínfimas cercas e dormem na propriedade. Muitos versus Adamastor, que não deixa ninguém entrar. Em maus lençóis, vivia encafifado porque os inumeráveis pernoitavam. No inverno cujas lápides de mármore esf...
2024-01-31
02 min
Minissonhos
pai outra mãe, com Silveriô
O pai apertou os cintos, vestiu a touca e os óculos e conferiu o combustível, por precaução. Acertou todos os botões coloridos e recebeu sinal positivo da estação aérea. Pronto para decolar. Era o pior voo da sua vida, fazia parte de um ataque. Seu avião continha uma bomba atômica que seria despejada sobre a sua cidade amada. O pai carregava o peso dela sozinho, era o seu dono, o criador. Uma bomba é sempre antes e depois: uma mudança, uma despedida. Alçou voo e se desprendeu do chão, avançou pelo corredo...
2024-01-31
01 min
Minissonhos
antessonhos, com Sinuhe LP
Minissonhos é o podcast do livro infantojuvenil Minissonhos (Ed. Urutau, 2022), escrito por Sinuhe LP e ilustrado por Ana Zequin. O projeto foi financiado pelo Programa de Estímulo À Cultura de Bauru (PEC/2022). Narração e texto: Sinuhe LP Capa: Ana Zequin www.minissonhos.com
2023-03-25
05 min